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Prazer do topo

publicado em 6 de abril de 2019 - Por Pastor Jessé

“Eu gostaria que alguém me tivesse dito, lá trás, que quando você chega ao topo, não há nada lá”. Assim ponderou, no pico de uma vida de sucesso, o renomado escritor britânico Jack Higgins, autor do renomado livro “A Águia Pousou”.

A expectativa de encontrar a satisfação ou prazer pleno em algum topo da vida é uma saga frustrante e comum ao ser humano, seja nos negócios, profissão, posses, entretenimento, vícios, etc. E mesmo que não procure o prazer pleno num topo, o prazer que a pessoa possa experimentar se chegar ao topo, não é menos frustrante.

Higgins se equivocou na sua ponderação ao lamentar que ninguém o advertiu sobre a expectativa equivocada que tinha sobre o “topo”. Já foi dito, séculos atrás, que o prazer do topo, em si, é vazio.

Séculos antes de Cristo, depois de uma vida intensa e de luxúria, o bem-sucedido rei Salomão concluiu: “Eu disse a mim mesmo: Venha! Experimente a alegria. Descubra as coisas boas da vida! Mas isso também se revelou inútil… não me recusei a dar prazer algum ao meu coração…. Contudo… percebi que tudo foi inútil… não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol” (Bíblia, Eclesiastes 2:1-11).

O problema humano não é que não há advertência sobre o frustrante prazer do topo. O problema é que poucos ouvem a advertência. Não ouvem porque a ilusão do prazer do topo é inebriante demais, especialmente nos anos jovens e fortes da vida. E a essa ilusão se ajunta a comum arrogância humana, não permitindo que haja espaço para se ouvir advertências como a de Salomão.

Lamentável é o estado da alma na atual busca desenfreada do prazer do topo. Os autores e psiquiatras da afluente cidade de Dallas, Frank Minirth e Paul Meier, no livro “HappinessIs a Choice” (Felicidade é uma Escolha), revelam que empresários milionários os procuram porque, tendo tudo, inclusive acesso a todos os prazeres, tais empresários não têm paz e alegria interior: “Eles vêm à nossa clínica como último recurso, suplicando que os ajudemos a conquistar o impulso suicida que os aflige. “

O atual mundo, sempre hedonista, fazendo do prazer seu objetivo, colhe o oposto do que busca nos topos que atinge. O mundo movido pelo prazer é o mundo vazio, infeliz e frustrante. O prazer em si é como a droga. Sempre se busca mais para se conviver com o vazio provocado pela frustração do fugaz prazer anterior. E novos topos são perseguidos na ilusão de que o próximo topo será diferente.

O Epicurismo ensinava que o prazer é o bem maior, por isso ele deve ser o alvo da vida. O Estoicismo afirmava que a “apatia”, ou seja, o negar todo desejo de prazer, é o caminho melhor para a vida. Porém, o caminho sábio, que responde ao drama humano, não é nenhuma dessas duas propostas.

F. W. Boreham, outro autor inglês, escrevendo meio século atrás, enquadrou bem o dilema humano: “Nós balançamos como um pêndulo, indo da libertinagem epicurista para a severidade estoica, falhando em não reconhecer que… é a glória do Cristianismo que, rejeitando o absurdo dessas duas opções, conjuga as excelências cardinais das duas… Estamos no mar sem compasso. Nossas teorias do prazer estão em confusão desanimadora. Não existe uma doutrina definida da diversão? … Deve haver uma! E há”.

Sim, há. Salomão, na citação acima, denuncia a limitação do prazer e a frustração do vazio dos topos. Mas, em seu livro “Eclesiastes”, Salomão também informa que o problema é que os prazeres almejados dependem de topos que pertencem ao âmbito “debaixo do sol”. Tornar a busca do prazer, em algum topo “debaixo do sol”, em o propósito último da vida, é equívoco sempre frustrante. Isso é reduzir a vida ao âmbito “debaixo do sol”.

Na idade avançada, com anos de experiência e reflexão, Salomão concluiu: “Alegre-se jovem, na sua mocidade… mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento… Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude…” (Eclesiastes 11:9 a 12:1). A referência e o propósito da vida estão além do “debaixo do sol”. Não são achados nos finitos e furtivos prazeres dos topos terrenos.

Salomão adverte: “Lembre-se de seu Criador”. O propósito e a referência para a vida estão “além do sol”, na transcendência eterna de Deus. Essa realidade capaz de satisfazer o anseio do espírito humano. É uma realidade além da efemeridade dos topos e prazeres debaixo do sol.

Prazeres se tornam uma satisfação realizadora quando eles são experimentados, e apontam, para o prazer em Deus “acima do sol”. Encontrar Deus como o prazer maior da vida é o segredo da convivência equilibrada e satisfatória com a busca dos topos e seus prazeres terrenos. Deus é o topo que nunca passa e frustra. Nele e para Ele é que se devem buscar os topos terrenos.

Borham, o autor acima citado, colocando o propósito e referência da vida em Deus, aponta alguns princípios norteadores, decorrentes de Deus, para a busca do prazer: “Qualquer prazer que o refrigere, mas sem subtraí-lo, distraí-lo ou desviá-lo do propósito último da vida, é um prazer legítimo. Qualquer prazer que danifique ou comprometa o direito sagrado do outro, é um prazer ilícito. Qualquer prazer, ainda que bom, se não for mantido debaixo de equilíbrio, distorcerá a realidade ou destruirá o apetite.” Esse é o modo de se escalar todos os topos, sem cair em seus engodos.

Cristo veio ao mundo para apontar e possibilitar o propósito acima do sol – Deus, o prazer transcendente. Em Cristo, encontrando-se com Deus no perdão gracioso por ele mediado, a vinda encontra seu verdadeiro propósito “além do sol”. E os topos terrenos, e seus prazeres, encontram seu devido lugar. Eles passam a ser uma experiência realizadora. Por isso Cristo afirmou: “eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10:10).