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Pesadelo com lixo

publicado em 14 de dezembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Numa madrugada recente, sonhei com lixo. Estava junto a um dique de um lago, parecido com o do Taboão, quando joguei algo na água, parece que orgânico, resto de alguma fruta. Nisso chegou um rapaz, jogou algumas caixas de papelão, com logotipo e informações de uma lanchonete. Quando vi, já tinha gritado com ele, condenando tal descarte de lixo. Ele prontamente revidou, apontando para o lixo que eu jogara.

Nesse campo, muitos de nós precisamos melhorar nosso comportamento, em várias frentes. Aceitamos pacificamente o crescente uso de material descartável. Um pequeno lanche é servido numa caixa colocada numa grande sacola de papelão.

Um presente, pequeno ou grande, simples ou valioso, é embalado em caixas sofisticadas e, também, colocados em sacolas, algumas bem grandes, desproporcional ao tamanho do presente. Estamos tão acostumados que não imaginamos o impacto inicial: quanta madeira e outros insumos naturais são necessários para produzir essas embalagens. Depois, quando o descarte não recebe o devido cuidado, essas embalagens todas e outras mais do nosso cotidiano, de novo, vão impactar prejudicialmente o meio ambiente.

Se observarmos com um pouco de atenção é fácil perceber que o lixo nosso de cada dia resulta em quantidades absurdas. Começa nos sacos que enchemos em casa ou em nosso local de trabalho. Passa pelos catadores em trabalho típico de formiguinhas. Muita gente consegue o sustento ou melhora um pouco a pequena renda com esse tipo de trabalho.

O mesmo tem importante alcance na medida em que limpa nossas ruas e praças, na medida em que canaliza quantidades significativas de lixo para a reciclagem. Desse processo, resultam coletores maiores que se utilizam de veículos motorizados, a maioria em estado precário. Outro dia, passando diante de um depósito maior, que recebe material de coletores pequenos e médios, fiquei impressionado com uma verdadeira montanha de papelão a ser encaminhado para reciclagem. Diariamente, de nossa cidade, saem vários carretas carregadas com esse lixo a ser reciclado.

Lamentavelmente, quantidade semelhante, diariamente, é coletada pela empresa de lixo e transportada para o aterro sanitário. Apesar de toda técnica utilizada nos aterros, neste caso, o impacto sobre o solo, o lençol freático e o ar é altamente prejudicial.

Não é fácil de ser visto porque costumam ficar afastados do centro urbano, mas os aterros ainda ajuntam crianças, jovens, adultos e idosos que rastejam à procura de coisas que tenham algum valor de troca para a sua subsistência. Disputam espaço com urubus e outros animais que frequentam esse mesmo ambiente. Correm riscos diante de caminhões que fazem ali manobras para descarregar.

O lixo é um verdadeiro pesadelo. É possível diminuir a quantidade que produzimos diariamente. A lei paulistana que restringe o uso de sacolas plásticas em supermercados me sensibilizou para a redução da sua quantidade quando faço compras. As caixas, gentilmente, oferecem uma segunda sacola para reforçar o transporte de alguns produtos mais pesados. Habitualmente, agradeço mas não aceito.

É possível reduzir a quantidade de embalagens em lanchonete e em lojas, sem alterar o prazer e o conforto próprios dessas situações de compras. Por exemplo, acho bem inteligente a volta de óleo a granel para motores de automóveis. Muita embalagem que não teria outra utilidade é economizada com essa medida bem simples.

A lei que suspende a utilização de canudos para o consumo de sucos e refrigerante, embora um tanto radical, sinaliza para a necessidade de fazermos algo novo e radical. É necessário retroagir, pois avançamos demais na quantidade e na sofisticação da produção de lixo.

Uma boa reciclagem, extremamente benéfica para o meio ambiente, começa com o consumidor. É crescente o hábito de separar lixo orgânico daquele que é reciclável. Na medida em que estes são separados, ficam mais limpos, agregam mais valor em sua transformação para uma nova utilidade, poupando recursos in natura na produção de novas embalagens.

Infelizmente, continua frequente o número de pessoas que jogam lixo em calçadas, nas ruas e estradas através da janela de veículos. Lotes vazios e esquinas, principalmente em bairros populares, continuam sendo utilizados como local de destinação de lixo, de todo tipo, inclusive sofás, camas, colchões, eletrodomésticos, resto de material de construção, etc.

Precisamos todos diminuir a quantidade de lixo que produzimos no atual modo de vida baseado em descarte intensivo. Podemos todos contribuir para que o lixo tenha um destino adequado, intensificando a reciclagem. A natureza agradece e a vida melhora.