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Perdoem-me: “já não tenho lágrimas para chorar”

publicado em 17 de agosto de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Já é a quarta vez que o assunto desta coluna é pai. Ia partir para outro quando tomei conhecimento de uma história emocionante: Chico Lang, comentarista esportivo da TV Gazeta, perdeu 2 filhos em 8 meses. O mais novo, em função de uma terrível depressão, pulou de um apartamento do sexto andar para a rua. Mais recentemente, depois de vários tratamentos para superar dependência de droga, faleceu o mais velho, em consequência de um câncer na língua.

O relato do jornalista é emocionante. Conhecido por opiniões fortes e exímio debatedor, revela toda a fragilidade de uma família que se defronta com problemas dessa dimensão. Quando falamos de vazio existencial e de drogas, temos a inclinação de imaginar que esse tipo de coisa só ocorra longe de nossa família, em situações de vulnerabilidade pessoal, profissional, familiar, social e espiritual. No entanto, é muito comum que tais dramas também ocorram em pessoas que vivem em situações estruturadas.

Embora adolescentes, jovens e adultos de hoje tenham crescido com acesso a alimentação, carinho, diversão, viagens, boas escolas e acentuado consumo, inclusive de bens supérfluos, o vazio existencial continua assolando a vida de muita gente. Não são poucos os que não encontram sentido na maioria das coisas que faz. A facilidade de locomoção, a grande quantidade de festinhas  e vida noturna agitada, logo permite contato com drogas lícitas e ilícitas disponíveis no mercado.

A curiosidade inicial muito rapidamente pode se transformar em dependência. Um ponto a ser destacado no testemunho do jornalista é que existe a necessidade dos pais abordarem a questão rápida e de forma objetiva: “Chamei meu filho, o mais velho, e lhe disse: “Você está sendo engolido pelo ‘crack’. Logo você terá crescentes alucinações”. E o filho respondeu: “Já estou sentindo tudo isso”. Então, o pai determinou que ele devia ser internado imediatamente.

Mais adiante, ainda sob forte emoção, o pai relata que começou longa peregrinação em busca de uma clínica adequada. Raras e caras. Para além de seu poder aquisitivo. Algumas com  métodos duvidosos, outras com baixo histórico de resultados. Declarou ser angustiante esse tipo de corrida contra o tempo. Depois de algumas internações, em diferentes instituições, declara que observou resultados mais duradouros em clínicas com orientação religiosa, sejam evangélicas, espíritas ou católicas, baseadas em espiritualidade, vida comunitária, trabalho manual e orientação psiquiátrica e psicológica.

Esses quatro elementos deveriam ocupar mais espaço em nosso atual modo de viver e educar. É comum demorarmos antes de procurar um psiquiatra ou um psicólogo. A alguns ainda parece ser sinal de fraqueza, quando na verdade depressão, dependência química e outras síndromes de fundo emocional são doenças como as demais. Requerem cuidados especializados. Isso precisa ser encarado com naturalidade e, principalmente rapidez. Não deve ser postergado, mesmo quando haja uma boa desculpa para isso.

É comum pouparmos filhos e outros entes queridos de vários esforços, de trabalho domiciliar ou de afazeres que contribuem para o bem estar familiar. O trabalho não faz mal, muito pelo contrário, contribui para a adequada valorização dos bens que são adquiridos. Perniciosa é a ociosidade, o nada fazer, tudo receber de bandeja. Geram tédio, aborrecimento e, com o passar do tempo, sensação de vazio. Plantar e cuidar, fazer esforço e suar, dão sabor especial àquilo que se colhe.

Chave central de uma vida equilibrada é a convivência intensa com pessoas da família, sejam avós, tios, pais, irmãos, primos, padrinhos e outras pessoas próximas. O atual modo de vida e os encantos dos recursos oferecidos pela tecnologia moderna conduzem ao isolamento. Tem-se a impressão de uma vida agitada e colorida. Parece uma festa contínua, dia e noite, no âmago de cada um lateja profunda solidão, ânsia de relações afetivas, profundas e duradouras.

Tudo isso porque dimensão tipicamente humana é a espiritualidade, abertura para a transcendência, possibilidade de contanto com o próprio Deus. Hoje, diversas são as igrejas, todas apontando nessa direção. Grande número de pessoas é religiosa, a maioria mais religiosa quando o calo aperta, logo, um tanto displicente.

É necessário sempre aprofundar a espiritualidade, estabelecer vínculos mais profundos com Deus. A espiritualidade é uma dimensão a ser cultivada. Muitos são os líderes religiosos que podem contribuir para essa relação pessoal e comunitária com Deus. “Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos corajosamente, sede fortes!”.

O filho mais velho do jornalista vinha se recuperação da dependência do crack e iniciava um trabalho de recuperação na ‘cracolândia’ de São Paulo, mas foi alcançado por um câncer na língua, possivelmente, em consequência do tempo que usara crack frequentemente.