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Pequenas explosões logo enchem uma panela de pipocas

publicado em 9 de novembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Há menos de um ano estive no Chile. Estive em Santiago, Valparaíso e Viña Del Mar. A impressão foi a melhor possível. Ruas largas, planas, muito limpas, comércio diversificado, pessoas atenciosas, tudo bem organizado.

Chamou-me muito a atenção o fato de não ser permitida bebida alcoólica em locais abertos, somente em bares, clubes e restaurantes. Por sinal, esse país vinha sendo apresentado aos brasileiros como modelo para a reforma previdenciária e de economia de mercado. De repente, estoura uma crise que já dura cerca de 15 dias, tão grave que o jogo final da Libertadores foi adiado e, depois, transferido para a cidade de Lima, no Peru.

A crise chilena começou com o aumento de tarifas do transporte público. Semelhante ao que ocorreu no Brasil em 2013. No auge das manifestações, foram depredadas estações de metrô. A pauta cresceu e os chilenos passaram a brigar contra a desigualdade social. Após os atos de vandalismo, o presidente declarou estado de emergência e toque de recolher. Apesar da violência policial, o movimento reuniu mais de 1 milhão de pessoas em Santiago, no dia 25.

No Equador, as manifestações são contra subsídios aos combustíveis e contra novas exigências do FMI; foi necessária a decretação de estado de emergência. Na Espanha as intensas manifestações estão ligadas à condenação de 9 separatistas que defendem a independência da Catalunha, região populosa, rica e turística.

Na Bolívia, as manifestações estão ligadas ao processo eleitoral que mantém Evo Morales no poder há cerca de 20 anos. No rico Reino Unido se dá a divisão entre os que querem permanecer no Mercado Comum Europeu e os que defendem a imediata saída. Outras revoltas e manifestações pipocam na Argélia, Egito, Haiti, Hong Kong, Iraque, Líbano, Moscou e Sudão.

A Folha de São Paulo do último domingo avalia que o noticiário internacional está dominado por ondas de protestos: “Essas ondas parecem ser caóticas e desconexas, destinadas a sumir tão repentinamente quanto surgiram, mas há semelhanças notáveis entre elas: enquanto os descontentes aprenderam a se organizar pelas redes sociais, as autoridades atingidas pela ira popular frequentemente respondem com força policial e vigilância em massa”.

Ao longo dos séculos, conflitos internos e entre países sempre ocuparam páginas numerosas da história. A geração de um país que é atingida por conflito duradouro continua sofrendo durante décadas. A reconstrução de um país é sempre um processo demorado e muito pesado. Já ocorreu muitas vezes de grandes porções de uma população deixarem o próprio país para reiniciar a vida em terras estrangeiras.

O povo brasileiro sempre foi reconhecido como pacífico, afeito ao diálogo, disposto a construções compartilhadas. Atualmente, as contraposições estão mais agudas. Ao invés de debates construtivos, está havendo muitos confrontos, excesso de bate boca.

Está ocorrendo acentuada polarização entre esquerda e direita, entre economia com preocupação social e a economia de livre mercado, entre amantes da ditadura e defensores da democracia, entre posição de artista e a posição de moralistas. Queimadas nas florestas, óleo no mar e crimes absurdos tendem a ser acobertados com discussões acaloradas. Há uma tendência generalizada de aplacar labaredas com combustíveis altamente inflamáveis.

“Não se brinca com fogo” é um ditado popular muito antigo. Tem alta relevância no atual momento de nossa história. Os graves acidentes ambientais em Mariana, Brumadinho, região amazônica, o óleo que chega às praias do nordeste e aquele que ainda está sob as águas do mar, a poluição das grandes cidades, a morte de muitos rios … tudo isso exige bom senso, profunda análise, persistente busca de alternativas saneadoras. O tráfico de drogas, a violência criminal e a do trânsito, que afetam a vida de muitos jovens em todos os estados brasileiros, assim como o desemprego que continua muito alto, requerem pessoas competentes, muita reflexão e ação conectadas, forças verdadeiramente transformadoras.

Os enormes desafios pessoais, familiares, sociais e ambientais deste tempo em que nos cabe viver requerem de nós mais leitura (inclusive da história), mais análise e atuação em favor de uma sociedade baseada em justiça, fraternidade e paz. Os problemas são complexos, as soluções não são simples, dependem de consenso, cada um de nós pode e deve contribuir para que a verdadeira paz se estabeleça e seja duradoura.