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Pecados originais e finais, ambos desastrosos

publicado em 12 de maio de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

As consequências do pecado original relatado no Livro do Gênesis são de fácil compreensão. Acontecem ainda hoje quando um pai ou uma mãe cometem algum equívoco.

Por exemplo, quando um pai comete um crime, o trabalhador perde o emprego ou o empresário vê sua empresa falir, os filhos menores de idade dos mesmos não tem qualquer culpa, mas sofrem com a diminuição do orçamento doméstico. Guloseimas, brinquedos e passeios são logo reduzidos ou excluídos da programação familiar.

Assim aconteceu com a descendência de Adão e Eva. Perdeu encantos e delícias do paraíso. Passou a buscar sustento com o trabalho das próprias mãos e o suor do próprio rosto. Logo começaram as desavenças entre os próprios irmãos.

Confesso que nunca ouvi ou li a expressão “pecado final”. Também não tenho a certeza de que seja uma invenção minha. Utilizo-a aqui no sentido de uma pessoa que tenha um excelente histórico pessoal, familiar, profissional e de cidadão e a certa altura da vida comete um grande erro ou uma sequência de equívocos. Embora as boas ações do passado possam servir de atenuantes, o mais provável é que todo o currículo passe a ficar manchado.

Esse tema veio à minha cabeça a partir do editorial do BJD do último sábado, que abordava estratégias da campanha “Lula Livre”. Sem entrar no mérito de questões partidárias, Lula é um personagem central da história do Brasil nos últimos 40 anos. Migrante nordestino, metalúrgico, líder sindical, deputado federal e presidente da República durante 2 mandatos consecutivos.

Percorreu com persistência uma trajetória ascendente, enfrentou enormes obstáculos, precisou provar que um brasileiro sem diploma de ensino superior pudesse exercer o maior cargo da administração pública, desenvolveu políticas sociais, conseguiu governar apesar de forte oposição política e representou com desenvoltura o país em diversos cenários mundiais.

Tudo isso acabou profundamente arranhado com os processos judiciais recentes, condenação e prisão. Os pecados finais alteram a percepção de muitas coisas adequadas feitas ao longo do tempo. Causam as mais diversas reações, muitas destas de desapreço.

É necessária muita atenção mesmo quando estamos fazendo o bem. Não sou carpinteiro, mas já aconteceu algumas vezes de tentar consertar algum móvel. Tudo caminha bem. Estando o reparo praticamente pronto, uma última martelada ou giro da chave de fenda coloca tudo a perder.

Ainda mais arriscado quando estamos consertando uma instalação hidráulica. Um último e desnecessário aperto pode gerar espirro de água para todo lado. O conserto pode então depender de novas peças e nem sempre é fácil secar cômodos, móveis e utensílios molhados.

Assim também é na vida. Todo cuidado é pouco quando estamos iniciando estudos, atividades profissionais ou empreendimentos. É conveniente olhar sempre adiante, para os lados e também para trás, de forma que os passos possam ser seguros, longe de tropeços. Arriscar sempre é bom, mas também requer prudência, não se pode colocar tudo a perder por falta de precaução.

Todo equívoco traz consigo consequências desastrosas, podem ser prejuízos financeiros, decadência em padrão de vida já adquirido e, difíceis de serem limpadas, manchas na reputação pessoal. Só há uma saída: manter a integridade durante todo o tempo, inclusive nas pequenas coisas de cada dia.

Pecado em etapas finais de um trabalho, de um mandato ou da própria vida é muito arriscado, pode acontecer de já não haver tempo para a sua correção. A primeira imagem é a que fica, a última, também.