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Pandemia de medos: um convite à reflexão individual e coletiva

publicado em 24 de março de 2020 - Por Ambiente em Pauta

O livro do geógrafo Yu Fu Tuan, Paisagens do Medo, publicado originalmente no final da década de 1970, tornou-se um clássico, podemos afirmar, por tratar de um tema sempre presente nas sociedades: o medo.

O autor propõe estudarmos a partir de diferentes povos e culturas o que é o medo. Expõe que nós usamos o medo para controlar as crianças, desde cedo, e que como fenômeno social isso gera repercussões diversas, entre elas podemos citar que usamos o medo e não a construção de conhecimento para dar aos humanos em desenvolvimento as ferramentas para ler o mundo.

Isso soa muito familiar na vida adulta, não? Quais são as consequências quando não dispomos de leituras baseadas em conhecimento e esclarecimento para enfrentamento do medo coletivodiante dos perigos reais? Criamos monstros (os outros, sempre), fantasmas (que não nos auxiliam na escolhe de formas factíveis de enfrentamento), etnias culpadas, países ameaçadores, enfim… sobram apontamentos muitas vezes baseados mais em preconceitos irracionais e desconfiança, do que em condutas de esclarecimento, empatia e pensamento coletivo.

A pandemia acabou de chegar ao Brasil.

Não podemos nos render aos medos e superstições. Temos que pensar que há grupos duplamente vulneráveis, por idade e por condições de vida:problemas crônicos mal tratados,  sem acesso a água para manterem seus ambientes mais higienizados, casas lotadas, sem ventilação, muitas vezes residindo em locais alugados, sem acesso ao mercado formal de trabalho, com alimentação deficiente.

Lembremos ainda que no Brasil, muitas crianças têm a principal refeição do dia na escola, não nos esqueçamos disto, é um fato. Com a suspensão das aulas, como ficarão nossas crianças? Nossos empreendimentos industriais, mais de 60% delas, são pequenos, com pequeno número de empregados, com baixo capital de giro, pouca margem para responder a crises. A mesma coisa podemos ver no setor de serviços locais. Não sabemos exatamente como serão as medidas estruturais de enfrentamento no campo da economia.

Diante da evolução deste quadro de pandemia temos que estar preparados para trabalhar mais coletivamente e colaborativamente. Lembrando que não temos muita experiência contemporânea nisto.As discussões sobre medidas indicam o caminho oposto ao que  vemos como prescrições milagrosas para recuperação econômica. Alguns grupos indicam a demanda de suspensão temporária de despejos residenciais durante o surto; por outro lado economistas bastante rigorosos com gastos públicos, como Alexandre Schwartsman, pregam  medidas para conter impactos sobre trabalhadores informais, que são mais de 40% no Brasil e medidas para auxiliar empregadores e empregados formais.

 Neste enfrentamento temos que frisar que todos, de algum modo, enfrentarão algum grau de dificuldade. Contudo, temos que pensar conjuntamente quais as medidas que impedem uma ruptura grave do tecido social que nos une.
No campo da saúde pública, os relatos da Itália mostram que devemos nos esforçar para retardar o contágio, e dar tempo para as equipes de saúde terem condições mínimas de atendimento aos casos mais graves.

 Muitas pessoas não foram dispensadas do trabalho ou não puderam parar por motivos de força maior,deste modo, as pessoas que têm condições de se isolarem deveriam entender isso como uma missão de colaboração à coletividade. No campo da saúde mental deixo aqui um link https://news.un.org/pt/story/2020/03/1707792 para cartilha do Organização Mundial da Saúde para enfrentamento da “pandemia de medo”, dando dicas  para mantermos a saúde mental diante dos desafios e da chuva deinformações.  Os desafios são grandes, todavia podemos descobrir caminhos incríveis de colaboração e crescimento coletivo.

Patrícia Martinelli, Geógrafa, colaboradora do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais.