Colunistas

Pai ontem, hoje, amanhã e sempre

publicado em 3 de agosto de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Ser pai é uma tarefa insubstituível que tem data para começar, requer dedicação permanente, sem que ele saiba o dia e a hora da finalização dessa tarefa. Filhos de todas as idades sempre recorrem ao pai, é o seu ancoradouro, tanto em momentos felizes quanto nos momentos de turbulência, ao longo de toda a vida. Mesmo depois do passamento paterno, o filho cultiva na memória e no coração os seus principais ensinamentos.

No entanto, nunca foi fácil ser pai. Essa missão, a exemplo de outras, nas últimas décadas passaram por grandes mudanças. Aqueles que hoje são avós foram criados em famílias maiores, com 6, 8 ou 10 filhos. A autoridade paterna ocupava lugar central na condução desse grupo.

No contexto rural, desde muito cedo as crianças começavam a participar do cultivo da terra e da produção de alimentos. Na medida em que ficavam adultos e se casavam, no sítio paterno construíam suas casas e uma vilinha se formava. No centro de tudo isso estava a autoridade do pai. Uma queixa presente nesse contexto era a de que o pai era muito autoritário, pouco afeito ao diálogo. Pais eram respeitados.

As mudanças ocorridas em poucos anos logo quebraram esse núcleo tradicional. No contexto urbano, os membros da família começaram a se dispersar. A possibilidade de empregos na indústria, no comércio e em órgãos públicos por meio de concursos gerou uma dispersão de filhos, inicialmente, para outras cidades ou estados. A quantidade de filhos rapidamente foi diminuindo. O autoritarismo paterno passou a ter menos aceitação.

A autoridade deixou de ser regra central em função do modo de produção dos próprios alimentos, para ser algo mais pessoal, ligado ao acervo emocional. O diálogo entre pais e filhos passa a ser valorizado. Com frequência, pais que eram autoritários em relação a filhos mais velhos, tornaram-se mais acessíveis e carinhosos em relação a filhos menores.

Muito rapidamente, a família encolheu. Hoje é comum casal com apenas 1 ou 2 filhos, sem convivência com núcleo familiar mais amplo de avós, tios e primos. Não poucas mães ou avós assumem o papel paterno em função da ausência do progenitor. As crianças foram colocadas no centro, exercem autoridade, às vezes ditadura, sobre os pais. Acostumados ao consumismo, querem tudo, nada pode esperar, só fazem o que querem. Atordoados, os pais presentes não conseguem acompanhar a quantidade absurda de informações que chegam aos filhos por meio da TV e da internet.

Ainda adolescentes, saem de casa. Procuram o preenchimento do vazio interior fora de casa. Logo se mudam para outros centros urbanos para estudar, ou para outros países para enriquecer sua formação profissional com uma segunda língua ou para tentar a vida. Tudo na perspectiva do filho. A bola está com ele. Aos pais cabe correr atrás, trabalhar para que os filhos mantenham algum contato com a família, quase sempre apenas virtualmente.

Cada época apresenta o seu desafio aos que abraçam a missão de ser pai. Individualmente, cada um precisa se reinventar. Ir ao encontro do filho. Dar a ele o suporte necessário mesmo à distância. A dependência financeira de filhos, em função de desemprego ou de carreira que não decola, se estende por anos que vão muito além dos 18, 21 ou 24 anos de idade. Cabe também compreender suas as escolhas , mesmo quando estas contrariem costumes e valores da própria família. É a prevalência do indivíduo sobre o grupo familiar.

Muita coisa pode ser suprida. O afeto, a atenção, o abraço, o beijo, o diálogo olho no olho, a repreensão bem medida, os encontros familiares dependem da presença física de pais e filhos. Todos os contatos virtuais possíveis remendam, mas não substituem.

Todo pai faz falta ao filho. Todo filho faz falta ao pai. Não obstante o enorme esforço de mães e avós que cuidam sozinhas de crianças, adolescentes e jovens, a ausência paterna é sempre um enorme vazio. Crianças que desde muito cedo ficam em escolinhas durante todo o dia sentem muito a ausência de pais que trabalham muito, que não param em casa ou que estando nela dão pouca atenção às demandas dos filhos. Ser pai, apesar de todas as mudanças, continua sendo uma missão muito exigente. O verdadeiro pai é quem cria, educa, procura estar perto todo o tempo, e ama incondicionalmente.