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Paga a conta sem ter sentado na cabeceira da mesa

publicado em 13 de julho de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Poucas vezes voltei tantas vezes a um mesmo assunto. Acontece que estou muito preocupado com brasileiros que trabalharam dezenas de anos e ainda não chegaram à aposentadoria. Mais preocupado estou com jovens que não entraram no mercado de trabalho. Muito mais preocupado ainda com aqueles que trabalham sem contribuir para a previdência social. Dentre outros, 13 milhões de desempregados.

Lembro-me bem, embora na época tivesse menos de 10 anos de idade. Estava no caminhão de meu pai, o rádio mais chiava do que falava. Ocorria uma forte campanha de doação de ouro de pessoas físicas para o Tesouro Nacional: “A Campanha “Ouro para o Bem do Brasil” será uma contribuição patriótica do povo brasileiro em todos os quadrantes da nossa amada Pátria para o Tesouro Nacional, objetivando o fortalecimento do lastro-ouro e maior valorização da nossa moeda.

Com este gesto de amor ao Brasil, estará o povo brasileiro contribuindo, com o pouco que seja, para atenuar o impacto inflacionário, alistando-se para fazer com que a revolução atinja os seus altos objetivos”. Parece-me que conseguiram 1.200 kg de ouro. Corria o ano de 1964.

Lembro-me também do confisco da poupança realizada pelo presidente Fernando Collor: “Sexta-feira, 16 de março de 1990, feriado bancário. Um dia após tomar posse como o primeiro presidente eleito no país de forma direta após quase 30 anos, Fernando Collor de Mello anunciou um pacote radical de medidas econômicas, incluindo o confisco dos depósitos bancários e das até então intocáveis cadernetas de poupança dos brasileiros”.

O Plano Collor I determinou que os saques na caderneta ou conta corrente estavam limitados a NCZ$ 50 mil. O restante ficaria retido por 18 meses, com correção e 6% de juros ao ano. O povo pagou a conta mas não adiantou. Em seguida, a inflação voltou galopante. Por sinal, inflação alta é outra forma do governo transferir contas a serem pagas por ele aos cidadãos. O brasileiro pagou essa pesada conta durante muitos anos.

Mais recentemente, em nome de melhorias na economia e de aumento na quantidade de empregos, Temer impulsionou a reforma trabalhista. Vários direitos trabalhistas deixaram de existir. Entre outros, possibilitou o trabalho intermitente, a negociação individualizada sem passar por sindicato, divisão de férias em até 3 períodos, etc. O desemprego cresceu, afetando principalmente a jovens ingressantes no mercado de trabalho.

Agora é a vez da reforma previdenciária. Será necessário mais tempo de contribuição. O cálculo do benefício tende a valores menores. Os idosos trabalharão mais, os jovens sentirão ainda mais a carência de vagas. Governo, deputados e empresários dizem que é a reforma necessária, urgente e indispensável.

Dizem também que outras serão necessárias para o equilíbrio do Tesouro Nacional. De fato, cada novo passo da reforma aumenta o movimento da Bolsa de Valores e o dólar cai. A reforma está sendo boa para os que lucram na movimentação do mercado. Será também boa para os trabalhadores?

Não consigo entender porque tirar dinheiro dos aposentados é bom para o mercado. Menos dinheiro, menos consumo, menos vendas. Ontem vi uma explicação diferente de uma jornalista da Globo News: equilíbrio das finanças do governo atrai novos investidores, inclusive estrangeiros.

Novos investimentos, mais indústrias, maior produção, mais emprego e renda. Tomara que isso seja verdadeiro. Prefiro estar enganado. Mas continuo tendo a sensação de que os trabalhadores continuam pagando contas de cujo consumo não participou. Era diretor de uma faculdade em Guarulhos.

Numa noite qualquer o dono a vendeu para uma Sociedade Anônima mantenedora de dezenas de faculdades. Os recursos procediam da Bolsa de Valores. Logo, a quantidade de funcionários foi drasticamente reduzida, os professores mais graduados, com remuneração maior, foram dispensados.

Todo tipo de despesa foi enxugada. No terceiro mês do trimestre, nada se pagava, para apresentar “lucros” robustos no fechamento da Bolsa. Sinto que a educação, a saúde, o trabalho e a aposentadoria conforme critérios mercadológicos não trazem bons resultados para os indivíduos. O mundo atual é repleto de exemplos sofríveis em países ricos e pobres.

O contraponto a um estado inchado não é o mercado liberal, livre e solto, é o Estado política, econômica, financeira e socialmente equilibrado. É um assunto para eleitores e eleitos. A reforma está indo da Câmara dos Deputados para o Senado Federal. Ficando fora estados e municípios, no que diz respeito ao funcionalismo público, virá depois para a Assembleia Legislativa e Câmara Municipal. Ainda há tempo de influenciar para o bem dos cidadãos.