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Os discursos sobre sustentabilidade

publicado em 24 de junho de 2019 - Por Ambiente em Pauta

Uma das principais marcas da contemporaneidade vivida pela sociedade é a emergência de questões ambientais, contexto este no qual os discursos sobre sustentabilidade emanam como interpretações sobre as formas de entender os problemas e encaminhar possíveis soluções.

A sustentabilidade é um tema tão debatido que chega a soar como um mantra da contemporaneidade. Trata-se de um discurso aberto, que se constitui e é constitutivo dos sujeitos, em um movimento cíclico em que se exploram diferentes visões de mundo e de si.

O desejo de uma verdade que se coloque como reposta para a preocupação com a manutenção da vida no planeta tem um apelo tão grande a sobrevivência que desvaloriza questões fundamentais, tais como: de que sustentabilidade estamos falando? Sustentabilidade do quê e para quê? Quem está falando sobre sustentabilidade e por que está falando? Há quem interessa os discursos que estão ganhando espaço na mídia? Por que alguns discursos ficam à margem dos grandes debates nacionais e internacionais?

Com base em Foucault entendemos os discursos como práticas que geram significados apoiados em regras históricas que estabelecem o que pode ser dito em um campo discursivo e em um dado contexto histórico, além de regras de formação, resultando em um complexo de relações com outras práticas discursivas e sociais e o poder expressado por elas.

Podemos acompanhar os deslocamentos sofridos por alguns discursos sobre sustentabilidade, sendo um deles o do economista Ignacy Sachs, que na década de 70 do século passado apresentou uma proposta multidimensional e alternativa ao modelo de desenvolvimento, denominada Ecodesenvolvimento, que trazia a relação entre proteção ambiental, desenvolvimento econômico e participação social.

Porém sua proposta não se limitava a simples união desses três aspectos, ele dava especial atenção para a superação da dependência política, econômica, cultural e tecnológica dos países menos favorecidos, estava imbuído de um processo de transformação social, compromisso com a equidade, justiça e a autonomia dos povos.

Em 1987, a Comissão de Brundtland apresentou à sociedade o conceito de Desenvolvimento Sustentável, através do livro Nosso Futuro Comum, que se tornaria conhecido e amplamente utilizado em todo o mundo com a seguinte ideia: o desenvolvimento que satisfaz às necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.

Esse discurso apresenta especial atenção à ênfase econômica e tecnológica na solução dos problemas. Ele é composto a partir de um deslocamento das ideias de Sachs para atender a ideologia de mercado e se adequar à racionalidade político econômica do liberalismo e, mais tarde, do neoliberalismo. O efeito desse deslocamento foi o esvaziamento de todo o caráter político do discurso do Ecodesenvolvimento, que condiz com um dos principais efeitos sociais do neoliberalismo.

O discurso do Ecodesenvolvimento aproxima-se hoje do que chamamos de “sociedades sustentáveis”, mostrando-se preocupada com o fator sociedade como o eixo central no qual se constroi sua linha ideológica, tratando de diversas esferas como equilíbrio e justiça, empoderamento social nos processos, ética, diversidade cultural, espiritualidade, política, economia e também meio ambiente, entre outras.

Já o discurso do desenvolvimento sustentável que tem como seu eixo central a economia, assinala para o forte apelo antropocêntrico e econômico, preocupado para que nunca faltem recursos, ou seja, matéria-prima para que o grande regulador social atual – o mercado, não pare de funcionar.

Somado a isso, nos discursos do desenvolvimento sustentável percebe-se a ausência da preocupação com questões de justiça e equidade social, bem estar da população, ética, diversidade cultural, entre outros, demonstrando a fragilidade do discurso do desenvolvimento sustentável em dar conta de reverter algumas situações que atualmente tornam nossa sociedade insustentável.

A proporção tomada pela crise contemporânea requer um discurso de sustentabilidade que se baseie em uma proposta que não se limite ao mercado, baseado em esperanças tecnológicas, em que uma sustentabilidade de mercado será sempre reducionista por não conseguir dar conta de outras esferas em que há necessidade de ação, como a justiça social, valores éticos de respeito à vida e às diferenças culturais.

MARIA CRISTINA MUÑOZ FRANCO, INTEGRANTE DO COLETIVO SOCIOAMBIENTAL E ASSOCIAÇÃO BRAGANÇA MAIS