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O valor ambiental e social das praças

publicado em 17 de novembro de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Se Bragança Paulista tivesse uma praça bem cuidada e convenientemente arborizada em todos os bairros, com certeza faria melhor jus à sua identificação como estância climática.

O que significa do ponto de vista ambiental uma praça convenientemente arborizada? Quando pensamos em praças, a primeira imagem que vem à cabeça é a de árvores, a sombra fresca, a brisa que embala, as aves que cantam e as crianças que correm felizes. Um lugar limpo, aberto e seguro, propício aos encontros e ao lazer. Um lugar de todos nós.

Uma praça assim – aquela que todos queremos para nosso bairro – é o resultado de uma construção entre dois parceiros- o serviço público (prefeitura) que cria o espaço e o mantém, e o cidadão que o preserva e cuida, como um bem de todos. Mas há a percepção de que a prefeitura não faz a sua parte, assim como o cidadão também não faz. Todos reclamam e as praças viram lugares perigosos e sujos, abandonados.

Estudo1 mostra que, diante da pergunta direta – você pagaria cinco reais por mês para ajudar a deixar a praça linda?- a resposta das pessoas  seria sim. Mas o engajamento mensal não é garantido, já que o cidadão brasileiro é um sujeito marcado pela insatisfação permanente e persistente desconfiança diante dos poderes públicos.

Qual o valor humano do cidadão? E qual o valor ambiental de uma árvore?

Estudo realizado em Ponta Grossa2 informa que o valor ambiental e social de uma árvore de 20 anos existente em uma praça é de R$ 5.565,16.  Esta cifra representa o “trabalho” de uma árvore ao longo do tempo em favor da qualidade e umidade do ar e da permeabilidade do solo e alimentação da terra em microrganismos e água, pelo menos, ou seja, em favor da qualidade de vida dos humanos urbanos que têm numa praça bem arborizada um local de lazer, bem-estar, saúde e sociabilidade.

Então, como preservar as praças? As associações de bairro dependem sempre de uma pessoa determinada que quando vai embora não consegue deixar sucessor e a luta morre. Há também a parceria público-privada que permite a uma empresa comercial “patrocinar” o cuidado de uma praça. Trata-se aqui de um interesse privado – valorização econômica da praça – que é um espaço público. Faltam, no entanto, programas sistemáticos de educação ambiental, educação cidadã e de boa vizinhança para que as praças prosperem. Aos cidadãos-usuários caberia fiscalizar o uso pelos poderem públicos de seu “investimento” que vem dos impostos devidos. Seria uma valorização da cidadania.

Recentemente a prefeitura publicou editais para  obras de revitalização e reforma de três parques: o Lago do Jardim São Miguel, o Lago da Hípica Jaguari e o conhecido cartão postal de Bragança, o Jardim Público. A licitação para este último foi para a contratação de uma empresa para fazer as ”obras de paisagismo, revitalização, reforma  e recuperação de áreas e equipamentos públicos”.

O edital descreve o Parque Luiz Gonzaga da Silva Leme (Jardim Público) como sendo “composto por inúmeras árvores e um espaço importante de lazer na cidade”. Valor da obra:  Dois e meio milhões de reais.

Seis empresas participam do concurso: Bernardi Empreendimentos e Soluções Ltda, RJC Sinalização Urbana Ltda, CAT Engenharia e Construção Eireli, Construtora Cesar Gonçalves Ltda-EPP, Pex Incorporação e Construção Eireli e TD Construções, Redes e Instalações de Gás Eireli. Foram revitalizadas também a praça da Matriz (Praça Raul Leme) e a da Igreja do Rosário.  Quem assina a revitalização destas duas, assim como a do Jardim Público é o conhecido arquiteto-paisagista Marcelo Novaes, de Campinas.

Estas três praças são antigas e tradicionais e têm árvores de grande porte, com cerca de 40 anos, que devem ser preservadas, afirma Marcelo Novaes. Para ele, cada praça tem um perfil específico que depende da localização e uso espontâneo da população do entorno. Praça de lazer, de descanso, de passagem, de caminhada e exercícios físicos grupos de idade, entre outros.

Em geral estas praças urbanas são mais voltadas para atividades específicas, para o uso social e de lazer e exigem equipamentos e serviços de acordo: balanços, bancos, quiosques, espaço para pets, espaço para crianças, faixa de pedestres, ciclovias, iluminação, etc. A paisagem – árvores, arbustos, canteiros, compõem o quadro.

Do ponto de vista paisagístico são projetos de fácil manutenção com plantas perenes, de pouca poda e arbustos e árvores de porte adequado aos espaços existentes. Privilegiamos uma “vegetação estrutural que define os espaços, encanta os olhos e atrai os passarinhos”, conclui o paisagista.

Já os parques, como o Lago dos Padres, que é uma reserva de conservação ambiental, assim como o Refúgio das Aves, no Jardim América,  privilegiam o ambiente vegetal natural do lugar e exigem outro tipo de cuidados.

Uma praça, uma rua, ou mesmo uma recomposição ou compensação ambiental só dá certo quando se planta a árvore certa, no lugar certo e no espaço certo. Para Marcelo Novaes isto vale também para quem quer plantar uma árvore na sua calçada ou uma empresa que precisa pagar compensação ambiental. “Não adianta plantar quarenta mil árvores, criadas em tubetes, num espaço no qual cabem 20 mil, pensando que, de qualquer maneira, metade vai morrer mesmo”.

1. periodicos.ufc.br/eu/article/viewFile/30553/70557do

2. (“Valoração ambiental das árvores no espaço público urbano de Ponta Grossa”. http://tede2.uepg.br/jspui/handle/prefix/563).

Contribuição de Teresa Otondo, jornalista e integrante do Coletivo socioambiental e Associação Bragança Mais.