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O que não mata, engorda?

publicado em 7 de maio de 2019 - Por Ambiente em Pauta

O que une produtividade primária, revolução verde e a água contaminada das nossas torneiras?
Produtividade primária dos ecossistemas, de modo bem simplificado, está associado a quanto que determinados ecossistemas apresentam em condições naturais como capacidade de produzir biomassa.

Biomassa? Sim, toda soma de matéria viva que um ambiente pode sustentar/produzir. Isso inclui tudo o que comemos, de plantas, a raízes, frutas, e proteínas animais.

Para se ter uma ideia, o ecossistema que mais produz naturalmente é o de floresta tropical pluvial (produz 20.000 Kcal/m²/ano), enquanto essa produtividade numa área de deserto fica próxima dos 400 Kcal/m²/ano. Não é por acaso que técnicas de agrofloresta tem sido pesquisada para recuperação de sistemas agroflorestais mais produtivos e de baixo impacto.

No Brasil, a inserção de plantas exóticas, com vistas a produzir determinados tipos de criações, ou tipos de lavouras, perturbou os ecossistemas preexistentes, debilitando a médio prazo a capacidade de produtividade primária natural dos ecossistemas, ou seja, perda de fertilidade dos solos, perda de retenção de umidade, biodiversidade etc.

A revolução verde, por sua vez, decorre de uma transição do uso de conhecimento de experimentos para armas químicas durante o período entre guerras, quase volta para o uso na agricultura, passando então a ser anunciada como a possibilidade inédita de ampliar a produtividade primária de áreas inférteis, sinalizando o fim da fome no mundo.

A propaganda de fim da fome no mundo mostrou-se apenas um dispositivo para justificar o uso indiscriminado de agrotóxicos. Os efeitos maléficos deste tipo de uso são tão exaustivamente comprovados, que países que se preocupam com a saúde da população, uma vez que isso afeta diretamente a saúde financeira e de suas economias, aboliram o uso de diversos destes produtos ou criaram listas que indicam limites muito rigorosos quanto à presença destes em alimentos ou na água.

Em levantamento recente, a Agência Pública apresentou dados muito alarmantes do ponto de vista de saúde pública no Brasil associado a agrotóxicos. Os resultados mostram que a água de uma a cada quatro cidades no Brasil apresenta detecção de agrotóxicos.

O estado de São Paulo está entre os estados que apresentam o maior número de municípios com identificação do problema (504 municípios dos 645 detectaram agrotóxicos na água).
Bragança Paulista está na lista, infelizmente. A presença destes agrotóxicos não ultrapassa os limites impostos por uma lei extremamente desatualizada, e por isso, não dão visibilidade ao problema para que ações imediatas possam proteger a população.

Os sistemas de tratamento de água nas cidades brasileiras não estão preparados para conter esse tipo de contaminante. Também não são considerados na legislação brasileira, a “soma” da presença destes elementos químicos na água.

Quando analisados muitos são detectados abaixo dos padrões que indicariam algum perigo segundo a lei, todavia, se considerados a interação entre eles, poderiam ser considerados um coquetel extremamente perigoso, capaz de causar diversas doenças, como alterações na capacidade das pessoas de terem filhos (as), doenças crônicas, câncer, malformação fetal, disfunções hormonais, puberdade precoce, alergias, problemas gastrointestinais e endócrinos, neurológicos, entre outros males.

O que não mata, não engorda necessariamente, e ainda afeta irremediavelmente muitas vidas. As leis que nos protegem estão obviamente ultrapassadas e não consideram as pesquisas sobre os efeitos graves dos agrotóxicos sobre a saúde da população; mais agrotóxicos têm sido liberados para uso no Brasil e ninguém vai nos ajudar a pagar esse acerto de contas com nossos corpos quando tudo começar a falhar.

Quer saber mais acesse o link com conteúdo completo da Pesquisa Pública aqui: https://apublica.org/2019/04/coquetel-com-27-agrotoxicos-foi-achado-na-agua-de-1-em-cada-4-municipios-consulte-o-seu/

Patricia Martinelli, Geógrafa, Colaboradora do Coletivo Socioambiental Bragança Mais