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O espetáculo não pode parar

publicado em 2 de fevereiro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Nos dias atuais, o lazer, o espetáculo, o show, a diversão e a comunicação têm ampla predominância sobre a produção material, o trabalho, o serviço e o respeito ao sofrimento, principalmente, alheio. Invariavelmente, aconteça o que acontecer, ainda que seja catástrofe com intenso sofrimento e muitas mortes, o Jornal Nacional sempre termina com uma notícia leve ligada ao esporte ou a artes. É como se dissesse “pronto, passou, tudo continua bem”. Não há necessidade de pensar, analisar, buscar alternativas, construir solução para os dramas, por mais agudos que estes sejam.

No último domingo, enquanto milhões de pessoas ainda estavam angustiadas com o desaparecimento de cerca de 300 pessoas na tragédia de Brumadinho, enquanto centenas de famílias velavam dezenas de entes queridos mortos, a 50 km dali, em Belo Horizonte, jogaram Cruzeiro e Atlético, América e Tupi. Alguns poucos milhares de pessoas brincavam nos estádios, em jogos que poderiam ser adiados. Não foram. O calendário esportivo é muito apertado. Compromissos financeiros de rádios, TVs e patrocinadores não podem esperar.

Há em nossos dias uma supervalorização do espetáculo. O que importa é se distrair. Custe o que custar. E custa caro para consumidores, para aqueles que frequentam os vários tipos de espetáculo, para os contribuintes e para órgãos públicos. Assustei-me outro dia nas proximidades do shopping de Bragança. Passando pelo local, vi estacionadas 5 ótimas viaturas da PM, cada uma com cinco policiais.

Fiquei apreensivo, estaria acontecendo algo mais grave na cidade? Só mais tarde lembrei que era o primeiro jogo do Bragantino no campeonato, toda aquela força policial era apenas para dar segurança ao time do Guarani que estava chegando. Infelizmente, necessária. O evento esportivo, como evento social, pode ser mais civilizado, liberando grande parte desse empenho policial para situações graves de insegurança, infelizmente, muito comuns em nossas ruas e bairros.

A vida e a morte cada vez mais encontram menos valor em nosso meio. A vida é um dom, mas não nos é dada acabada. Ela necessita ser desenvolvida. As crianças necessitam de muito apoio, cuidado constante e educação adequada.

Para chegar à vida adulta plena são necessários 21 anos, praticamente, na média, uma quarta parte de toda a vida. Os adultos, em média, contribuem decisivamente para a sociedade durante 35 anos, menos da metade da expectativa de vida dos brasileiros. Grandes são os prejuízos emocionais, materiais, econômicos e sociais quando uma vida é brutal e antecipadamente retirada de nosso meio.

Os desastres logo são transformados em espetáculos. Todos os meios de comunicação logo correm para oferecer algum detalhe em primeira mão. As imagens são reapresentadas muitas vezes. Levam-nos à exaustão, mesmo assim, continuamos vendo. E comentando. E postando, também à exaustão, as imagens e informações mais recentes. Ainda mais dolorosa do que a morte comprovada, com reconhecimento do corpo e enterro digno, é o desaparecimento de pessoas, soterradas ou não.

É grande a ansiedade. Insuportável é a alternância de desânimo e de pequenas esperanças, infundadas ou não. Dolorosa é a passagem das horas e a consequente diminuição da possibilidade de resgate com vida. Não encontrar restos do ente querido, não sepultar, é uma dor intensa e sem fim.

Os velórios hoje são muito rápidos. Aparentemente, a maioria dos parentes logo volta a uma vida normal, cheia de distrações, de futilidade e de eventos supérfluos. Já o luto, do ponto de vista psicológico, é um processo demorado e profundo. Não é instantâneo. A duração e intensidade da dor dependem de pessoa para pessoa.

São necessários contato sensorial com o fato, elaboração da notícia, choro, negação do ocorrido, indignação, superação, chegando tempos depois à aceitação e compreensão. Tudo isso não se dá na superficialidade. Dá-se no recolhimento e na relação com outras pessoas. Todos nós somos importantes quando estamos próximos de pessoas que perderam entes queridos ou que vivem uma catástrofe pessoal, familiar, grupal ou social.