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O bilhete do menino e o cofre abandonado com dinheiro

publicado em 26 de setembro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Criminosos de colarinho branco, nos últimos anos, foram alcançados pela Justiça. Parlamentares locais, estaduais e federais, ex-presidente, governadores e prefeitos foram indiciados, condenados e presos com uma frequência um pouco maior do que aquela à qual estávamos acostumados.

O mesmo aconteceu com empresários pequenos e grandes. Tinha-se a impressão de que esse tipo de crime já não compensava e que sua incidência entraria em forte declínio. Não é o que estamos observando no noticiário recente. Inclusive a pandemia acabou servindo de oportunidade, pretexto e contexto para algumas ocorrências.

A maioria envolve valores vultosos, que vão muito além daquilo que um indivíduo e sua família conseguem gastar ao longo de algumas gerações. Colarinhos continuam brancos, as mãos, não. Ladrões de galinhas deixam rastros no chão, colarinhos brancos deixam sinais digitais em computadores, celulares e contas bancárias. Todos facilmente rastreáveis.

A presente reflexão dá-se no contexto da atual campanha eleitoral para prefeito e vereadores. É a oportunidade de banir alguns candidatos que já deram sinais de não serem íntegros. Não é tarefa fácil, requer observação e alguma pesquisa. Também não é fácil porque entre eleitores ainda existe a ideia de que vale a pena levar vantagem em tudo. Enquete realizada pelo Fantástico da TV Globo, no último domingo, indica que 77% dos consultados ficam com o bem que encontram, não procuram o dono, com a justificativa de que achado não é roubado.

Essa enquete abriu uma reportagem sobre Manoel de Sá, um catador que trabalha em cooperativa de reciclagem em Araçatuba. Pobre, aos 63 anos de idade, num cofre arrombado e largado num canto do local em que trabalhava, encontrou R$ 36 mil. Não titubeou.

Logo disse que devolveria ao dono. Esse cofre foi encontrado há algum tempo na beira de uma rodovia. Esteve na delegacia de polícia sem que ninguém visse o dinheiro. A insistência de Manoel Sá levou ao encontro do dono do cofre e do dinheiro numa cidade vizinha. Ele fora assaltado. Já não tinha esperança de recuperar esse valor, poupança de uma vida inteira.

Benício é um garoto de 7 anos de idade, mora em Curitiba. Há alguns dias, com o guidão de sua bicicleta, arranhou de leve o para-lama de um automóvel. Não titubeou: deixou o seguinte bilhete para o dono do carro: “Desculpa eu bati no seu carro … me desequilibrei na bicicleta … aqui está o telefone do meu pai”. Ao saber da ocorrência o pai ficou orgulhoso da atitude do seu filho.

Também o dono do carro ficou comovido. Foi ao encontro do menino, para conhecê-lo e dizer que ficasse tranquilo, pois, o estrago foi muito pequeno, talvez, sem o bilhete, nem percebesse. A educação desse pai fez toda a diferença. Infelizmente, não poucos pais educam filhos para a esperteza, custe o que custar. Projetam riqueza material inclusive por caminhos ilícitos.

Os dois fatos logo viralizaram, ou seja, caíram na boca do povo. Nosso dia a dia está cheio de atitudes e comportamentos dignos como esses. Uma sociedade mais igualitária, justa e fraterna requer que o bem sempre caia na boca do povo. Na boca, nas atitudes e nas ações.

De outro lado, faz-se necessário não admitir em qualquer hipótese a esperteza que tira proveito de outros. Sempre é tempo de buscar o bem e combater o mal. Campanha eleitoral é um período adequado para identificar e valorizar candidatos que já deram provas de honestidade ao longo de sua atuação social, que são capazes de administrar ou legislar e apresentam propostas compatíveis com os desafios vividos neste período da nossa história.

Manoel de Sá, idoso de Araçatuba, e Benício, garoto de Curitiba, seus exemplos nos comovem e movem para boas ações. Ensinam que honestidade independe da idade e da posição que se ocupa na sociedade. Na dura batalha entre o bem e o mal, é a vitória do trigo sobre o joio.