Colunistas

O bem e o mal se difundem rápida e intensamente

publicado em 25 de maio de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

O texto de hoje em parte corrige aquilo que publiquei na semana passada sobre a campanha do agasalho, neste inverno que se aproxima. Ao realçar a necessidade de ações estruturadas e consistentes, principalmente do poder público e dos vários níveis de governo, para fazer frente às necessidades de pessoas carentes, tratei o ato de doar roupas usadas como sendo esporádico, assistencial, sem a força de mudar significativamente a vida do doador e do necessitado que recebe a doação.

Um episódio muito simples desta semana demonstrou-me que fazer o bem, por menor que seja, faz toda a diferença. Chegando ao pedágio, embora não estivesse com pressa, procurei a fila mais curta. Esta andou normalmente até que o carro que estava logo diante de mim parou.

Começou então uma movimentação estranha dentro do veículo. A atendente continuava com a mão estendida. Logo apareceu outro atendente dizendo que devíamos dar ré. Achei um tanto difícil essa providência, visto que a fila mais curta há um minuto, agora era a mais longa. Entendi então que o motorista diante de mim estava sem dinheiro para o pedágio.

Talvez mais pensando em mim mesmo do que nas pessoas envolvidas naquela situação, chamei o motorista. Dei-lhe uma quantia suficiente para pagar o meu pedágio e o dele. Senti o seu alívio. Logo vi contentamento no rosto daquele que orientava a marcha ré. Alguns motoristas estacionados se sentiram aliviados. A cancela já estava liberada para o motorista sem dinheiro. Nisso ele saiu do carro e veio em minha direção. Doou-me uma deliciosa caixa de morangos bem vermelhos. Lindos. Agradeceu e seguiu sua viagem.

Chegou a minha vez de seguir viagem. A atendente me parou. Deu-me R$ 0,60 que o motorista da frente deixara. O valor do pedágio era R$ 2,40. Agradeceu-me o fato de ter facilitado a liberação da cabine e de ter evitado uma fila mais demorada. Confesso que fiquei impressionado com a rápida e intensa expansão do bem. Vale a pena doar agasalhos, um abraço, um sorriso, uma palavra animadora. Custam pouco e geram uma onda benéfica. Infelizmente, o mal tem a mesma intensidade em sua difusão.

No Brasil, estamos vivendo tempos difíceis, marcados por variados tipos de violência. Estamos presenciando variadas agressões entre pessoas que atuam nos diversos poderes da república. Incrivelmente, também há muita maledicência entre o núcleo familiar do presidente da República, militares por ele escolhidos e alguns seguidores de seu guru maior. Preocupa a difusão da crença de que conseguiremos mais segurança na medida em que cidadãos andem armados. Nossa democracia está vivendo dias beligerantes.

Gostei muito de cartaz exibido por uma estudante em recente manifestação pública: “Armo-me de livros, para me livrar de armas”. Colhemos daquilo que semeamos. Temo que em curto espaço de tempo a maledicência, o crescente armamento da população e a intensa beligerância produzam acelerada confusão e intenso sofrimento. A história, inclusive a atual, é rica em exemplos de que quem semeia o mal colhe a confusão, a amargura generalizada e o temor irremediável.

É tempo de trabalharmos em favor de uma cultura da paz. Não há a necessidade de sermos grandes heróis nesse processo. É suficiente o bem realizado no dia a dia. A sua força de difusão é incrível. Arrebatadora. Quando nos faltar forças para o bem, podemos orar como Francisco de Assis: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.

Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz”. O nosso presente e o nosso futuro dependem de maior difusão do bem, afastando-nos de todo mal.