Colunistas

No pouco e no muito, honestidade sempre

publicado em 28 de julho de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Não gosto muito de atender pessoas que oferecem coisas nos cruzamentos. Talvez porque hoje ouvimos com frequência relatos de abordagens perigosas em tais situações. Mas um fato recente num dos cruzamentos de Bragança inspirou a coluna de hoje.

Uma pessoa adquiriu no cruzamento cinco panos de chão por dez reais. Chegando em casa, verificou que por engano recebera seis panos. Imediatamente deixou um no automóvel. Durante dias, passando por aquele cruzamento e por outros, procurou o vendedor que lhe entregara um pano a mais. Encontrou dias depois. O vendedor ficou tão impressionado com a honestidade de seu cliente que lhe doou o pano em questão.

Um fato semelhante aconteceu comigo em Joanópolis. Estive ali durante o Festival de Inverno. Na praça havia um palco onde artistas se revezavam. Na mesma praça havia cerca de 10 barracas de comidas e bebidas. O público não era numeroso, mas ocupava vários espaços junto ao palco e às barracas. Atravessei a praça para chegar a uma barraca de comida. Escolhi uma porção de pasteizinhos.

O atendente, muito gentil, me informou que viriam 12 pastéis e que demoraria cerca de 10 minutos. Recebi a bandeja, paguei e atravessei a praça, visto que o palco estava no lado oposto. Quando a bandeja estava quase vazia, aproximou-se o vendedor com um pastelzinho envolto em guardanapo de papel. Entregou-me o salgadinho enquanto me informava que viera um a menos. Surpreso pela atenção, gentileza e honestidade, fiquei a pensar: como me encontrara ali? Como descobrira que faltava um? Confesso que pastel envolto em honestidade tem um sabor muito especial.

Já com essas ideias na cabeça, recebi um vídeo de 2003. Num jogo entre a seleção da Dinamarca e do Irã, por engano um jogador do Irã acabou pegando a bola com a mão dentro da grande área achando que a jogada estava parada. Para sua infelicidade, o jogo não estava parado e o árbitro marcou o pênalti favorecendo a seleção da Dinamarca. Porém o técnico dinamarquês vendo que foi um mal entendido, fez algo incrível.

Chamou o seu jogador que bateria o pênalti. À beira do gramado, enquanto abraçava o jogador, passou-lhe uma orientação. O jogador caminhou lentamente para a grande área, cobrou a penalidade, rolando a bola para fora do gol, pela linha de fundo. Técnico e jogador, percebendo a falta de intenção do iraniano, corrigiram a situação. Ambas as torcidas aplaudiram com entusiasmo esse gesto de honestidade, raro no esporte e em outras situações de convivência social. No momento do pênalti, a Dinamarca já perdia o jogo, que terminou com vitória do Irã por um gol a zero.

A honestidade é um tesouro precioso. É decisivo para o presente e o futuro. Havendo Jesus subido com seus discípulos ao Monte das Oliveiras, dias antes de ser crucificado, disse-lhes o Mestre: “O Senhor age como um homem que, tendo de fazer longa viagem fora do seu país, chamou seus servidores e lhes entregou seus bens. Depois de dar cinco talentos a um; dois a outro e um a outro, segundo a sua capacidade, partiu imediatamente. Então, o que recebera cinco talentos foi-se, negociou com aquele dinheiro e ganhou outros cinco.

O que recebera dois, da mesma sorte, ganhou outros dois; mas o que apenas recebera um, cavou na terra e aí escondeu o dinheiro de seu amo. Passado longo tempo, o senhor daqueles servos voltou e os chamou às contas. Veio o que recebera cinco talentos e lhe apresentou outros cinco, dizendo. – Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão, além desses, mais cinco que lucrei. Respondeu-lhe o amo: – Bem está, servo bom e fiel, já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes.

Entra no gozo de teu Senhor. O que recebera dois talentos, apresentou-se a seu turno e lhe disse: – Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão, além desses, dois outros que ganhei. E o amo: – Servidor bom e fiel, pois que foste fiel em pouca coisa, confiar-te-ei muitas outras. Compartilha da alegria do teu senhor” (Mateus 25, 14-30).