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Necessário mas insuficiente

publicado em 18 de maio de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Encontra-se em andamento a Campanha do Agasalho 2019. Na fachada do prédio da Prefeitura Municipal, amplo painel dá visibilidade a essa campanha. Simultaneamente, em várias igrejas e associações ocorre movimento semelhante. A doação daqueles que podem é angariada  e, depois, distribuída dentre aqueles que necessitam desse apoio. O mesmo ocorre com alimentos, na forma de cestas básicas ou pratos já preparados e servidos em algum ambiente da igreja, associação ou empresa que promove esse tipo de assistência.

Isso é bom para quem doa e para quem recebe, mas é insuficiente. Aquele exerce a caridade, doa um pouco de si mesmo. Às vezes, doa aquilo que incomoda ou que desnecessariamente ocupa lugar no guarda-roupa, na dispensa ou na garagem. Muitas vezes, ao doar, ajudamos mais a nós mesmos do que àquele que recebe nossa ajuda. Quando ficamos apenas numa doação esporádica, a nossa situação e a da pessoa carente continua a mesma. Oferecemos um pequeno alívio, mas o dia a dia continua precário. O assistido continua sem os meios de aquisição de bens inerentes a uma vida saudável e prazerosa. Não ter acesso a bens de primeira necessidade dói muito quando supermercados, padarias, farmácias e lojas estão repletos de produtos. Embora bem visíveis, são inacessíveis quando o poder aquisitivo é quase nulo.

As necessidades de pessoas carentes, hoje, quase sempre independem de projetos familiares e de esforços individuais. Estão ligadas a salários baixos, trabalho precário e intermitente, desemprego, dificuldades de se aposentar ou pensões com valores insuficientes. Sob o regime capitalista, cada vez mais voraz, as carências atuais são programadas, projetadas e estruturais. Cabe ao indivíduo buscar suas soluções ou ficar à mercê da ajuda de terceiros, na maioria das vezes, também insuficientes e esporádicas.

Quando observamos nossa cidade, facilmente percebemos grande variedade e quantidade de veículos e consequentes congestionamentos. Facilmente percebemos supermercados de vários tamanhos, facilmente percebemos variedade de lojas pequenas, de rede e inclusive shopping. Tem-se a impressão de uma cidade dinâmica e rica. Uma rápida incursão nos populosos bairros periféricos logo muda essa impressão inicial. Não são poucos nem pequenos os problemas estruturais.

O site cidades do IBGE coloca Bragança Paulista num bom posicionamento quando o quesito é tamanho da população: 50º. mais populoso do Estado de São Paulo e 180º. do país. Seria de esperar semelhante posicionamento nos quesitos de trabalho, renda, emprego, PIB per capita. Infelizmente, a posição ocupada nesses itens despenca: é o 177º. município paulista e o 502º. brasileiro quanto a renda de trabalho formal; é o 131º. estadual e o 455º. nacional quando o quesito é população ocupada.

Esses números pioram e acendem luz vermelha para todos nós que vivemos em Bragança Paulista quando vemos o nosso município ocupar a posição 203º. dentre os paulistas e a 964º. brasileiro em termos de PIB per capta. Pior ainda: Bragança é o 325º. município paulista e (pasmem) o 4.468º. município brasileiro quanto ao percentual populacional com renda nominal mensal per capita até ½ (meio) salário mínimo.

Campanhas como a do agasalho e outras são necessárias. Mas são insuficientes. Estamos todos os cidadãos e, principalmente, os poderes constituídos diante do enorme desafio de desenvolver o município a ponto de disponibilizar condições adequadas de vida para grandes parcelas da população bragantina. Isso passa necessariamente por melhor capacitação profissional, pela instalação de novas empresas em nosso território, por mais empreendedorismo local, por mais vagas de trabalho e pela melhoria da renda. Campanhas isoladas são um bom exercício inicial para ações duradouras e processos realmente transformadores.