Colunistas

Natal de Maria

publicado em 15 de dezembro de 2018 - Por Pastor Jessé

Chegou o frenesi do natal, agravando o estresse já tão comum ao cotidiano. Ninguém viveu mais intensamente a experiência do Natal do que Maria, mãe de Jesus. Ela atravessou situações explosivas. Porém, o estresse e frenesi não definiram o Natal dela.

Na sua juventude, ainda solteira, repentinamente, Maria é informada, por uma visão angelical, que ficaria grávida de forma inesperada e incomum. E também que seu filho viria para uma missão extraordinariamente desafiadora. Na mesma época, visando realizar um censo, as autoridades romanas decretam que cada cidadão deve ir se registrar na cidade de origem da família.

Maria, grávida de nove meses, é forçada a viajar cerca 140 quilômetros, indo da Galileia a Belém. Isso a pé ou montada num animal, vagueando por planícies e montanhas. Acaba dando à luz em Belém. Mas faltou hospedagem adequada para ela e bebê, forçando uma improvisação em espaço designado para animais.

Naquele improviso, quando Maria está concentrada em amamentar, limpar e cuidar do bebê, repentinamente adentraram uns pastores de ovelha, estranhos, rudes e malcheirosos. Eles explicaram que foram orientados por um anjo a visitar o bebê, com esta mensagem: “Estou trazendo boas novas… Hoje na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2:11). E narraram que também surgiram mais anjos cantando esta verdade: “Glória a Deus… paz aos homens a quem Ele concede o seu favor” (Lucas 2:14). Ou seja, proposições únicas e revolucionárias, não somente para o bebê, mas também para a humanidade toda.

É marcante a atitude de Maria. Em meio a todo esse acontecimento, o registro relata: “Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração” (Lucas 2:19). Enquanto um turbilhão passava por sua vida, o texto da narrativa relata que Maria “guardava” e “refletia”, e assim fazia com “essas coisas”.

Maria entendeu que o Natal é estritamente sobre certas “coisas” definidas, transcendentes e preciosas. O verbo “guardar”, no antigo grego, língua original do texto, se refere a preservar firme na memória. Eram as “coisas” reveladas pelo anjo a ela, somada ao revelado aos pastores, e em consonância com profecias bíblicas proclamadas nos séculos anteriores. As “coisas” eram certas verdades e realizações.

Pelas palavras do anjo aos pastores, as tais “coisas” envolviam “salvador”, “Cristo” e “o Senhor”. E ainda, havia o anúncio que Deus “concede seu favor aos homens”, então, proporcionando um tipo único de “paz aos homens”. Em meio a todo o frenesi do Natal, é preciso recobrar o que é fundamental – a paz concedida por Deus. É preciso gravar na mente o conteúdo e fundamentos do Natal, conscientemente sabendo a dimensão única e sublime do natal. Maria assim gravou na mente o significado do natal. E refletiu.

Tais “coisas” se definem pelos títulos do bebê anunciados pelos anjos – “Cristo”, “salvador” e “Senhor” – falam de um ser único e numa ação singular entre os humanos. E isso num cumprimento concreto de fatos referentes a alguém historicamente definido e estabelecido. Depois de se revirar filósofos e religiões, esse conteúdo, ou “coisas”, há de surpreender e maravilhar pela sua natureza exclusiva e suficiente.

“Cristo”, o messias ou o ungido, reflete o que os profetas anunciaram séculos antes. Falaram sobre aquele que Deus enviaria com a missão especial de inaugurar a era da esperança e paz com Deus. “Salvador” expressa que a condição humana, rompida com Deus, está condenada e precisa de um resgatador que propicie graciosamente o perdão, transformação e reconciliação com Deus. O bebê era esse “Cristo” profetizado como “o salvador” que viria.

Porém, esse salvador, que resgataria o ser humano da culpa e condenação através da cruz, é também “Senhor”. Naqueles dias do império romano, “Senhor”, ou “kurios” no grego antigo, era equivalente ao título imperial “Cesar” no Latim. Então, chegava esse o novo “Cesar”, maior que o “Cesar” Romano, que era “o Cristo”. Era algo revolucionário.

Ele veio para um trazer um reino diferente, estabelecido de forma diferente por esse que era também “Salvador”. Um reino do qual ele é o “Cesar”, pois esse reino é constituído de pessoas resgatadas por ele, e que chegaram através dele a paz concedida por Deus e paz com Deus.

Os anjos proclamaram: “…paz aos homens a quem Ele concede o seu favor”. É equivocada a popularizada versão: “paz aos homens de boa vontade”. No texto, a boa vontade, ou favor, é de Deus, e não dos homens. Então, chegava um reino baseado na “paz” concedida ao ser humano pelo “favor”, ou graça de Deus, mediada por aquele que é o “Cristo”. Portanto, seria a paz íntima e eterna com Deus, distinta da transeunte “pax romana”, ou paz político-social do império romano, imposta ao mundo pela opressão de um forte exército humano.

Maria tinha muito a guardar, mas o relato também informa que Maria “refletia” no que guardava em seu coração. Ou seja, não mera especulação superficial, mas num envolvimento íntimo que procurava apreender o sentido para si. Não se tratava da popularizada “meditação” passiva da atualidade. Não era “ioga” que busca eliminar a reflexão e conteúdo mental.

Maria “refletia” num conteúdo, ou, as “coisas que guardava”. Refletia sobre a verdade o Evangelho.
Na língua grega do texto, o termo “refletia”, aplicado à atitude de Maria, tem o significado de “ajuntar para comparar”. É atividade e não passividade. É o ato de se tomar verdades, examiná-las em conjunto, procurando entender o sentido delas. É assimilar o sentido de um conteúdo. Maria buscava fazer do significado do natal a sua saúde mental e existencial.

Maria procurava entender a ação misericordiosa de Deus para resgatar o ser humano da culpa, vazio e tumultos emocionais. Tudo decorrente do desacerto com Deus. Maria se concentrou no plano divino que viabiliza o encontro com o eterno Deus através de um “salvador”. E assim viabiliza a paz íntima que vem dele, produzindo paz eterna com Ele, através do favor dele em “Cristo”. Num mundo vazio e conturbado, Natal é sobre o bem-estar único, íntimo e perene que passa pelo guardar e refletir no que o anjo chamou de “boas novas”, ou, Evangelho.