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Natal corrigido

publicado em 21 de dezembro de 2019 - Por Pastor Jessé

A frase de natal mais conhecida, especialmente nos cartões em extinção, é aquela da adoração da “milícia de anjos” manifestada aos pastores nos campos (Bíblia, Lucas 2:14). É uma frase crucial, porque ela resume a perdida essência do natal. Porém, tal frase é confusamente mencionada em versões variadas. E as versões mais comumente utilizadas são erradas.

Os anjos não disseram: “…paz na terra aos homens de boa vontade”. Dessa forma, natal seria sobre a virtude e mérito humano. O natal se basearia no humanismo, ou seja, seria centrado no ser humano. E então, o natal, ou, o Evangelho de Cristo, seria semelhante às outras religiões e filosofias no mundo. Porém, o Evangelho diverge de todos eles. O Evangelho declara que o ser humano não é essencialmente bom. Afirma o contrário.

Os anjos não disseram: “…paz na terra e boa vontade entre os homens”. Nesse caso, a “positividade” seria a base do natal. O pensar, ou fé, positiva teria o poder, em si, de produzir realidades. Isso tornaria o natal, e o Evangelho, em mais um proponente do poder mental humano, uma crença muito própria da “Nova Era”, conforme a pressuposição panteísta dela. É diametralmente oposta ao natal.

Os anjos não disseram: “…paz na terra e boa vontade entre os homens”. Essa construção reduz o natal, e o Evangelho, a um mero sentimentalismo. O ser humano foi criado com sentimentos. Mas sentimentos não podem ser o fundamento da virtude e existência humana. Sentimentos variam, falham e até passam. Por isso é volúvel o natal sentimentalista. Ele fica reduzido ao voto de “feliz natal”, que desaparece no dia seguinte. Ou ao sentimento bonzinho num dia apenas do ano.

E os anjos não disseram: “…paz na terra aos homens a quem ele quer bem”. Essa redação, na qual “ele” se refere a Deus, o sentido fica mais próximo do correto, mas ainda não é a melhor forma. Nela o natal pode ser visto como o decretar um Evangelho universalista. Ele seria baseado num Deus de inconsequente sentimentalismo. Deus estenderia o seu bem querer indistintamente a todos os seres humanos. Mesmo sem se voltarem para Deus, em Cristo, sem quebrantamento e transformação, todos estariam bem com Deus e para Deus. A justiça de Deus seria inexistente.

O que os anjos realmente disseram foi: “… paz na terra aos homens aos quais Ele concede seu favor”. A gramática é fundamental. Primeiramente, esse “Ele” nessa frase se torna conhecido pela frase anterior: “Glória a Deus…”. Então, “Ele” se refere a Deus. Ele é, e somente Ele, quem concede o “favor”.

Em segundo lugar, é preciso recordar que o Novo Testamento, incluindo esse texto de Lucas, foi escrito no grego antigo (Koiné). E conforme as nuances próprias da gramática grega, fica entendido que o substantivo “favor” (ou “agrado”) é algo que procede de alguém. Assim, como a frase antecedente afirma “Gloria a Deus”, o contexto informa que o “favor” procede de Deus. Os seres humanos são meros recipientes dele. O natal, e o Evangelho, são teocêntricos. São centrados e dependentes somente de Deus, e não do ser humano.

A grande verdade dessa nuance gramatical reluz quando se olha o contexto todo da passagem bíblica. Antes dessa milícia surgir com essa adoração sobre o “favor” concedido por Deus, o texto narra que primeiramente surgiu apenas um anjo. E ele proferiu uma mensagem categórica: “Não tenham medo. Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria… Hoje… lhes nasceu o Salvador, que é o Cristo…”. Tudo no natal exige e passa por um “Salvador”. Conforme as promessas feitas pelos profetas nos séculos anteriores, revelando a direção de Deus na história, o Cristo viria para redimir o ser humano. No natal isso se cumpre. Jesus é o Cristo e o Salvador.

Porém, Jesus, o Cristo, nasce para a cruz. Sem a cruz o natal perde seu sentido singular, tornando-se um evento vazio. A grande dádiva do natal se cumpre na morte substitutiva de Cristo pelo moralmente fracassado ser humano. E assim, Deus encarnado em Cristo, concede seu favor, ou graça, ao tomar sobre si a pena que é devida a todo ser humano. Por isso natal é sobre o fato que “Ele concede o seu favor.” Em Cristo, Deus satisfaz sua justiça. Por isso, diante da glória de Deus que aterrorizou os pastores, o anjo pode dizer: “Não tenham medo!”

Um Deus que não precisa do ser humano, e um Deus santo para quem o sempre pecador ser humano é repugnante, move-se para tornar esse ser humano aceitável diante dele. E move-se para socorrer o ser humano que nada merecia. O natal é sobre um “favor” inigualável e único que procede totalmente de Deus. É todo baseado no poder e graciosidade de Deus à parte de qualquer virtude e poder humano. Por isso é sobre uma solução que nenhum ser humano poderia construir. E é, assim, uma solução plena.

É diante disso que é possível a “paz” chegar na terra aos homens. Um dia virá a paz universal quando o reinado absoluto de Cristo for impetrado sobre a humanidade. Mas, nesta era, já é possível a paz íntima, independente do exterior. É a ansiada paz que o ser humano busca em tantas portas equivocadas. Tal paz surge no íntimo, onde o reinado de Cristo chega mediante o “favor” do natal. E chega somente naqueles poucos que veem sua necessidade de um “Salvador”.

É a paz de se saber que tudo está acertado com Deus para sempre. Tal garantia é possível porque ela é fundamentada no “favor” de Deus, e não no ser humano. Diante de tal verdade, naquela noite nos campos, os anjos não podiam iniciar a adoração de outra forma a não ser exultando: “Gloria a Deus nas alturas”.