Colunistas

Não é o suplício que faz o mártir, mas a causa

publicado em 1 de agosto de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Os pediatras comemoram seu dia em 27 de julho. Este último foi marcante: “Até o momento, 25 pediatras brasileiros morreram em decorrência de complicações causadas pelo novo Coronavírus”. Trata-se de uma informação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria. Vários jornais publicaram o fato, alguns relacionaram o nome e o CRM dos médicos, alguns muito experientes, outros bem no início da carreira. O número é significativo. Mais expressivo ainda é a grandiosidade e a causa desse martírio.

A esses 25 pediatras, somam-se centenas de médicos de outras especialidades e milhares de enfermeiros e outros profissionais da saúde. Tudo isso nos revela alto nível de doação, a ponto de colocar em risco a própria vida, para salvar a de outros. Tamanha doação não é comum entre nós, veio à tona juntamente com a assustadora pandemia, apresentando-nos surpreendente envolvimento e expressiva lição de vida.

Parte desses mártires foi colhida de surpresa no ambiente ou na instituição em que já trabalhava. Viviam o dia a dia sob controle quando começaram a chegar enfermos com a Covid. Poderiam ter solicitado férias ou algum outro tipo de afastamento, poderiam ter solicitado transferência para outro setor, mas optaram por acolher e tratar enfermos com a nova moléstia, altamente contagiosa. Apesar de todos os cuidados de assepsia, sabiam que colocavam em risco cônjuges, filhos, pais e outros parentes. Não largaram o barco, pelo contrário, remaram mais fortemente para salvar vidas que chegavam toda hora à procura de socorro. Vibraram com aqueles que foram curados, choraram não poucas mortes, sem saber que seu empenho seria em breve coroado pela maior de todas as doações, a da própria vida.

A formação de um médico demanda grandes investimentos pessoais do estudante, da sua família, do Ministério da Educação, universidades e professores. É comum a expectativa de que a formatura venha logo acompanhada de retorno, inclusive financeiro. Cerca de 6,5 mil alunos de último ano de Medicina, de 154 faculdades brasileiras, solicitaram graduação antecipada e partiram para o front, onde de forma imediata, apenas depois de algum treinamento básico, engrossaram o conjunto daqueles que se dedicam integralmente ao cuidado de doentes infectados pelo coronavírus. Abriram mão de tão esperadas solenidades de formatura. Para apreensão geral de familiares e amigos, apesar dos riscos, optaram pela doação de si próprios, de seus conhecimentos, desenvolvendo habilidades na dura prática de UTI, enfermarias e hospitais lotados, alguns bem equipados, outros nem tanto.

Muitos são os impactos emocionais vividos por profissionais da saúde nestes meses de intenso trabalho. Impacto maior receberam aqueles que presenciaram o martírio fulminante ou demorado, ao longo de dias, de algum colega. Não poucos precisaram recorrer a apoio psicológico, psiquiátrico ou espiritual para assimilar, aguentar e continuar esse trabalho extenuante. A lição que fica é impactante sob todos os aspectos, principalmente porque a causa desse martírio é a doação da própria vida para poupar outras vidas, na imensa maioria, de pessoas desconhecidas.

O pensamento que intitula a coluna de hoje, “não é o suplício que faz o mártir, mas a causa” é de Santo Agostinho (354 a 430 dC). Sob a luz do Evangelho, o martírio é a plenitude do amor. Francisco de Assis (1182 a 1226 dC) traduz essa verdade numa prece “Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado.Pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna”.

Nossa homenagem a todos os mártires brasileiros (e do mundo) pela causa da cura de doentes com a Covid. Nossa prece por cada um dos seus familiares, em especial pais, cônjuges, filhos, avós e netos. Esperamos que doação tão radical nos ajude a desenvolver um mundo mais fraterno e solidário.