Colunistas

Moeda perdida: dura vida de aposentado

publicado em 19 de maio de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

A aposentadoria é um pesadelo para trabalhadores autônomos ou microempreendedores que não fizeram regularmente contribuição ao sistema previdenciário. A aposentadoria é um sonho importante da maioria dos trabalhadores. Muitos fazem contagem regressiva.

Assustam-se cada vez que aparece alguma notícia relativa a mudanças na previdência, costumeiramente, para pior quanto a idade e a valores a serem recebidos depois de longo tempo de trabalho.

O início de uma merecida aposentadoria é um tempo precioso. Parece ser o ingresso em um novo tempo, sem relógio, livre para realizar coisas antes impossíveis devido ao horário de trabalho. Logo o aposentado percebe que não é tão simples, que é necessária uma adaptação, fica meio perdido enquanto não estabelece uma nova rotina para o dia a dia.

Depois de alguns meses percebe que está se esfriando muito rapidamente, que os intensos relacionamentos profissionais desaparecem num ritmo mais acelerado do que o desejado. Também muito rapidamente vai sendo engolido pela síndrome do “já-que-tá-aí”. Já que está aí vá até o supermercado. Já que tá aí venha me buscar. Já que tá aí leve meu filho à escola, ao dentista, ao futebol, à festinha de aniversário… e não esqueça depois de ir buscar. Consequentemente, as coisas desejadas há muito tempo continuam esperando, sem data nem hora para acontecer.
Isso não é o pior.

Já nos primeiros meses descobre que a redução da receita familiar cai muito por causa do enquadramento sob o teto da previdência e devido à perda de vale transporte, alimentação, refeição, participação em lucros, bônus e outros. Estando sem compromissos, é possível que o trabalhador até gaste mais do que enquanto trabalhava. Pequenos valores empregados em miudezas, no final do mês, chegam a somas expressivas. Mais grave ainda é a chegada de despesas inerentes à terceira idade.

O valor do plano de saúde dispara, a necessidade de remédios pode ser crescente. Filhos, cujas faculdades custaram muito, não decolam. Filhos que se casaram, agora com filhos, depois de sua separação, retornam ao lar paterno e materno, sem contribuição para dar.

O celular do aposentado toca várias vezes por semana. Sempre aparecerem números bem estranhos, o assunto é sempre o mesmo: oferta de crédito consignado. A resistência inicial logo deixa de existir. Um desses telefonemas pode ocorrer num momento de aperto maior do que o habitual.

O valor oferecido resolve alguma emergência, a parcela parece pequena, a quantidade de meses do crediário não é percebida, sempre acima de 36 meses. Rapidamente, chega a quatro ou cinco empréstimos, alguns em benefício próprio, outros em benefício de parentes que não pagam nem a primeira parcela.

Pelo menos 35% da pensão está comprometida. E a sonhada vida livre de compromissos vira um pesadelo, verdadeira prisão, cheia de saudades do tempo em que trabalhava, era produtivo, convivia com muita gente, tinha hora de descanso no almoço, desfrutava de férias. Quando vai ao banco para amenizar o peso dos empréstimos descobre que os mesmos foram transferidos para outros bancos. Precisa então ir a agências bancárias das quais nunca foi cliente.

É uma situação muito parecida com a parábola evangélica da mulher que perdeu uma preciosa e necessária moeda. “Ou, qual é a mulher que, possuindo dez moedas e, perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente, até encontrá-la? Quando a encontra, reúne suas amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha moeda perdida’ (Lucas 15.8-9)”. A renda do aposentado é uma moeda única, bem limitada, merece todo cuidado do beneficiado e todo respeito daqueles que vivem ao seu redor.

O tão esperado dia de pagamento deve ser um dia de festa. E é. Muitos aposentados encontram-se diante do banco bem antes da abertura do expediente. Tristemente não é pequena a agonia daqueles que buscam explicações e orientações de atendentes diante de valores que aparentemente desapareceram das suas contas. Foram para o pagamento de seus consignados. Uma aposentadoria tranquila requer planejamento e muita disciplina orçamentária.