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Missão complexa e exigente

publicado em 23 de novembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

A educação de filhos, de forma que estes se sintam realizados e felizes nas diversas etapas da vida, é uma missão complexa e exigente. Depende de autoridade, amor e autonomia em doses certas. O que funciona plenamente com um dos filhos pode ser motivo de reclamação da parte de outro filho.

Na família tradicional e patriarcal, predominava a autoridade, que trazia consigo disciplina, orientação, respeito e cobrança. A grande preocupação era a formação do caráter e a segurança material, baseada em formação para o trabalho e a poupança de recursos para uma vida sem riscos. Filhos educados nesse formato queixam-se da falta de carinho e da ausência de diálogo.

Nas últimas décadas, é mais comum encontrar educação familiar baseada em amor, prevalecendo carinho, diálogo e reciprocidade. A autoridade do pai e da mãe foi então substituída por uma maior proximidade. As crianças emitem suas opiniões e, quase sempre, esta prevalece em relação à dos adultos.

Em muitos lares prevalece a ditadura infantil ou adolescente. Numa sociedade altamente consumista, os filhos são verdadeiros acumuladores de brinquedos e equipamentos. Só comem o que querem, com predominância de comidas industrializadas e fast food. Às vezes, conseguem impor esse hábito para toda a família. As consequências disso são jovens e adultos com forte sentimento de vazio existencial, sem força interior para enfrentar os desafios da vida.

A formação baseada em autonomia, enraizada em liberdade pessoal, iniciativa, respeito à individualidade e apoio mútuo, não é muito comum. Saber escolher e ser responsável pelas escolhas que faz não são comportamentos de fácil acesso, consequentemente, de difícil assimilação. Ocorre que vivemos numa sociedade de muitas e múltiplas escolhas. Nada é definitivo em termos afetivos, sociais, profissionais. A todo momento é necessário fazer escolhas, comemorar os acertos ou arcar com o ônus dos desacertos.

O grande desafio, portanto, reside em conciliar elementos de autoridade, amor e autonomia na educação de filhos, desde muito cedo. Na labuta diária e em momentos conflitivos, que sempre aparecem numa convivência por mais harmoniosa que seja, esses elementos precisam estar presentes. Nem sempre é possível acertar na dosagem, mas não podem ser esquecidos.

Continua sendo comum que em nome da segurança, crianças e adolescentes sejam tolhidos em suas iniciativas de fazer algo novo ou diferente. É adequado favorecer vivências sempre que a criança manifeste alguma inclinação, pois muitos educadores, religiosos, atletas, artistas e outros profissionais costumam manifestar sua inclinação (vocação) muito cedo.

Tristemente, é muito comum que por motivos de separação conjugal dos pais, ausência ou negligência de um dos progenitores ou falta de condições materiais, crianças sejam educadas em condições muito precárias, quando o ambiente familiar é decisivo para o desenvolvimento intelectual e emocional da criança.

Mais comum hoje é fazer todas as vontades da criança, enchendo-lhe de brinquedos e guloseimas, sem cobrar-lhe disciplina e dedicação, poupando-lhe de todo e qualquer esforço. Não raramente professores são questionados pelo simples fato de corrigirem alunos com a veemência necessária. Quando ocorre algum incidente na escola, pais muito protetores colocam em dúvida os coleguinhas, os professores e a própria escola.

Educar filhos é uma missão complexa e exigente. Dentre muitos outros ingredientes indispensáveis, é fundamental equilibrar autoridade, amor e autonomia. E que o pai e a mãe, assim como outras pessoas que atuam nessa educação, tal como avós, que hoje são muito atuantes nesse mister, busquem juntos esse equilíbrio.