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Mente necessitada

publicado em 8 de setembro de 2018 - Por Pastor Jessé

Há alguns anos, Gary Kasparov, campeão mundial de xadrez, foi derrotado pelo computador “Deep Blue”, uma maquina de 1,4 tonelada construída pela IBM. Isso suscitou uma enorme discussão sobre a relação entre homem e computador.

E se especulou se o ser humano não poderia ainda criar uma máquina mentalmente idêntica a ele.
David Gelertner, professor de informática na Universidade de Yale, comentou na revista “Time” de 19/maio/1997, essa vitória do “Deep Blue”: “A ideia que o Deep Blue tem uma mente é um absurdo.

Como pode um objeto que nada deseja, nada teme, nada aprecia, nada necessita e não se importa com nada, ter uma mente?” Por esse argumento, e muito mais, não há como discordar do professor Gelertner.

Por mais espetacular que seja o “Deep Blue”, a distância entre máquina e ser humano é imensurável. Por ser o canal de expressão do espírito, a mente humana é única e é um diferencial intransponível. Por isso, a mente não se refere apenas à capacidade de raciocinar dados.

O “Deep Blue” era capaz de raciocínio enorme e veloz. Entretanto, a mente humana é muito mais que raciocínio de dados. Ela formula apreensões, avaliações, projeções, comportamentos, necessidades e, acima de tudo, amor, justiça, eternidade e valores.

No aclamado livro “A Inteligência Emocional”, o autor Daniel Goleman narra a dramática história do casal Gary e Mary Jean Chauncey, que repentinamente se acharam nas águas de um rio turbulento, onde caíra o trem em que viajavam. Eles se debateram para salvar a filha Andrea, de onze anos, fisicamente limitada devido à paralisia cerebral. De dentro da água e exaustos, Gary e Mary conseguiram passar a filha para os salva-vidas, mas o casal pereceu.

Daniel Goleman conclui que “somente o amor” poderia explicar tal sacrifício pessoal. Porém, é desconcertante a justificativa desse autor para a atitude nobre daqueles pais. Ele reduz o amor desses pais a uma reação do instinto evolucionista da sobrevivência – pais procuram salvar a prole para a espécie sobreviver.

Porém, a sublimidade do amor extrapola o reducionismo evolucionista. Se o motor da evolução é a sobrevivência dos aptos e fortes, qual seria a motivação evolucionista para se salvar uma criança incapaz e débil? E, a “lei da sobrevivência do mais forte”, não deveria levar os pais a se salvarem e abandonarem a débil filha? E como explicar pais que fazem mal a filhos saudáveis?

O fato é que o ser humano não é explicado pelo reducionismo evolucionista. Há no ser humano dimensões espirituais excepcionais como a volição que se confronta com dilemas morais, podendo ir tanto para o certo como para o errado.

Nas conjunturas mentais, o ser humano escolhe consciente tanto o mal como o bem, e por isso é responsável pela escolha. E quando se trata de amor, ele formula como valor correto, e a falta dele como errado.
E mais, é inato ao ser humano o ansiar pelo amor. E existe uma dimensão ainda mais profunda nesse anseio pelo relacional e amoroso. É o anelar pelo amor de Deus.

Na mente humana o espírito se expressa se sentindo incompleto, perturbado e solitário. Agostinho, o teólogo do IV século, expressou adequadamente: “Nossas almas estão profundamente inquietas, ó Deus, até que encontrem descanso em Ti.” E esse clamor por amor envolve o clamor por nexo diante da transitoriedade da vida e a perspectiva da eternidade.

No artigo acima citado, o professor Gelertner conclui assim: “É concebível que um dia os computadores venham a ser melhores que os seres humanos em quase tudo… Máquinas continuarão tornando a vida mais fácil…”. Porém, o autor finaliza: “E os seres humanos continuarão se importando com aquilo que sempre se importaram: consigo mesmos, os outros, e muitos deles, com Deus”. Na verdade, todos sempre se importarão com Deus, ainda que lidando de formas diversas, e muitos com abordagens incorretas.

Depois de tudo dito e feito, o íntimo do ser humano clama pela companhia do amor que corresponda à eternidade inerente ao seu espírito. O salmista escancarou a verdade do íntimo humano ao exclamar: “Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por Ti, ó Deus.

A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmo 42). E Cristo fechou a questão quando respondeu ao apelo do discípulo Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” Cristo respondeu categoricamente: “Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer mostra-nos o Pai?” (Bíblia, João 14:9).