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Maternidade compartilhada

publicado em 11 de maio de 2019 - Por 3

Trabalhando num colégio paulistano, encontrei no calendário um evento chamado “festa da família”. Logo me explicaram que o colégio faz essa festa porque o dia das mães e o dia dos pais são hoje um tanto constrangedores para alunos que não tem um dos progenitores ou vivem afastados dos mesmos. A festa foi muito bonita, espontânea. As famílias puderam conversar, tomar refrigerantes e consumir alguns petiscos. E juntos ouviram músicas ou dançaram.

Dias depois, reunindo-me individualmente com responsáveis dos alunos, chamou-me muito a atenção quando vieram dois padrastos como responsáveis. Um veio sozinho e deu conta do recado. Efetivamente acompanhava o dia a dia escolar de seu enteado.

Outro veio acompanhado da esposa, mãe do aluno, e incrivelmente sabia mais do enteado do que a própria mãe. Acompanha os estudos do enteado nos mínimos detalhes: qualidade e quantidade da lição de casa, disciplinas em que encontra mais dificuldades, o que o garoto deseja fazer no futuro, etc.

Também aparecem avós e tias como responsáveis por alunos. Alguns representando pais que trabalham muito e não conseguem comparecer. Outros representando pai ou mãe totalmente ausente da educação de seus filhos. A família anda hoje muito modificada, quase sempre muito reduzida, em geral, sem tempo para as coisas essenciais da vida.
Hoje, uma sala de aula com crianças de mesma idade e série não é homogênea.

Abriga crianças que convivem com pais dedicados durante todo o tempo, que levam e buscam na escola, que acompanham todas as suas atividades. Abriga criança cujos pais não conseguem acompanhar e, também, existem casos, tristemente não raros, em que não tem interesse, delegando indevidamente suas responsabilidades para avós ou outros parentes ou para a própria escola.

Nas reuniões de pais e mestres, pais de alunos com bom desempenho comparecem de forma assídua e interessada, pais de alunos com baixo desempenho ou com problemas disciplinares raramente comparecem.
É relativamente fácil dar presentes hoje, equipar a criança com um belo tênis ou com um celular de última geração. Também não é tão difícil liberar uma pequena verba para que o adolescente possa tomar um lanche com os colegas. Difícil é acompanhar as lições de casa, sentar-se ao lado até que essa fique pronta, conversar sobre os temas essenciais da vida, escutar e orientar. Poucos conseguem restringir o uso do celular e da internet mesmo quando isso já ultrapassa todos os limites do bom senso.

Dar atenção, cuidar e educar dá trabalho, mas vale a pena. Faz bem à criança. Coisas muito simples feitas com carinho não são esquecidas ao longo da vida. Tenho sobrinhos que se lembram com saudades de bolacha e groselha que tomaram comigo há 30 anos. Um deles fez nos Estados Unidos um macarrão recheado que fazia comigo durante a sua infância.

Queria que sua esposa e um amigo conhecessem essa brincadeira e experimentassem um sabor da sua infância. Pequenas ações revestidas de carinho fazem a diferença. Fazem parte do repertório emocional que, ao longo da vida, dão segurança em situações pessoais, profissionais e sociais.

a mesma forma, o pai, a mãe, os avós, os tios, os padrastos e madrastas, os professores e todos que se dedicam a crianças e adolescentes saboreiam a alegria de fazer o bem, o prazer da convivência e a satisfação de contribuir para uma vida alegre e feliz.

Nesta semana ia com pressa para uma reunião. De repente, a manobra de um caminhão me atrasava ainda mais. Esperei com alguma irritação. Assim que pude seguir, observei que do outro lado, uma mãe contente com o filho no colo também acompanhavam a manobra do motorista, marido e pai ansiosamente esperado.

Lembrei-me de minha infância. Minha mãe e filhos também esperávamos muitas vezes o retorno de meu pai com o seu caminhão. Minha mãe era mais calma e dócil depois da sua chegada. A maternidade compartilhada é ainda mais significativa para os filhos e todos que estão ao redor.

Que este 12 de maio seja muito feliz para todas as mães e para todos os seus.