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Mar de descaso e de vergonha

publicado em 8 de fevereiro de 2019 - Por Pedro Marcelo Galasso
Imagem Ilustrativa

Essa coluna começa com um trecho escrito no dia 15 de novembro de 2015, ironicamente no dia da Proclamação da República brasileira, que tratava do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, cidade tombada como patrimônio histórico da humanidade.

“O caso de Mariana é sintomático desta lógica perversa e corrupta. Os laudos sobre o perigo da construção circulam pelas redes sociais e expõem a não consideração de avisos sobre uma possível catástrofe, considerada pela grande mídia, interessada e parte fundamental desta rede de corrupção, uma fatalidade.

Não. Uma fatalidade ocorre sem aviso, sem notificação ou aviso prévio e é fruto de forças as quais não podemos controlar. O caso de Mariana é uma conjugação de descaso do poder público, a sede insaciável por riqueza de uma empresa e o mecanismo de corrupção que condenou uma região inteira à morte”.

No país que nunca aprende com seus erros, e erramos muito para não percebermos, a lógica do enriquecimento rápido e a qualquer custo permanece intocada e mais forte do que nunca. O caso de Brumadinho, assim como Mariana, não foi obra de um fenômeno natural ou algo similar, ele foi sim resultado de práticas corruptas e espúrias comuns a grandes conglomerados econômicos que se colocam acima das leis e de todos nós.

Os danos irreparáveis terão o mesmo fim daqueles de Mariana, ou seja, uma breve comoção, alguns questionamentos, a culpa pulando de mãos em mãos e, quando menos esperarmos, a culpa e a punição serão esquecidas pelo bem do crescimento do país, afinal, acidentes fazem parte do processo econômico.

Curioso é que as ações de controle, as mesmas propagandeadas em 2015, estão nos discursos, nas falas e nas intenções dos responsáveis. O que esperar? O esquecimento dentro de alguns meses. Laudos serão refeitos, pequenas obras realizadas até o próximo caso, até a próxima queda, até as próximas mortes. É vergonhoso pensar que um Estado como o nosso valorize tão pouco a vida dos seus cidadãos. É vergonhoso saber de antemão o que o futuro guarda aos responsáveis.

É vergonhoso saber que a Justiça brasileira irá perdoar o ocorrido, como se deu no caso de Mariana. Sim, basta esperar um pouco e o esquecimento será o senhor da situação, exceto para quem, tristemente, perdeu seus familiares e seus amigos.

Os danos ambientais são imensos, as ações de contenção insuficientes e a crise hídrica já ameaça dezenas de cidades cujos custos humanos e ambientais são difíceis de serem calculados. Nisso, a situação de Brumadinho também se aproxima do caso de Mariana.

No entanto, a lama também se fez presente na eleição para a presidência do Senado brasileiro. A audácia foi tamanha que a tentativa de fraude ou erro técnico, alguns utilizam essa nomenclatura correta, manchou a escolha do novo presidente.

A derrota de Renan Calheiros, tida como uma vitória do Brasil, após a sua renúncia traz problemas para a aprovação da Reforma da Previdência já que ele era o nome capaz de aprovar a reforma por conta de sua força parlamentar. O atual presidente, figura controversa e com alguns processos tramitando na Justiça, não parece ter tanta força para aprovar uma pauta tão densa e custosa a todos nós.

A escolha do Chefe da Casa Civil foi a vencedora no Senado que, agora, deve esperar o resultado da tramitação do projeto da Câmara de Deputados, cuja presidência é de Maia, um velho conhecido que também é do DEM, para que é esse o partido que irá pautar as eleições e as tramitações no Congresso Nacional.

É, parece que nosso país é próspero em afundar na própria lama.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com