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Inovações rápidas alteram profundamente o modo de viver

publicado em 14 de setembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Parece que foi ontem. E foi sob o ponto de vista histórico. Na década de 60 do recente século passado, poucas empresas e pouquíssimas residências tinham telefone. A vida e as transações comerciais funcionavam plenamente sem esse meio de comunicação. Naquele tempo, uma ligação telefônica era demorada, ninguém fazia ligação direta, dependia de telefonistas que faziam manualmente as ligações solicitadas. Fila de espera eram comum.

Nas décadas de 70 e 80, houve significativa ampliação da telefonia. No entanto, ter telefone em casa ainda era muito caro. Dependia de planos de expansão da empresa telefônica. Quando isso acontecia, as filas eram enormes, começavam já na véspera. Algumas pessoas espertas conseguiam várias linhas, depois, alugavam ou vendiam com bom lucro. Nessa mesma época, começaram os orelhões.

Com fichas metálicas. Dependendo do aparelho disponível, era difícil conseguir ligação. É desse período a expressão: “caiu a ficha”, ainda hoje utilizada para expressar que algo atingiu a comunicação esperada. Ainda nesse período, quando alguém precisava de uma ligação interurbana era comum ir a um posto de atendimento da empresa telefônica. Era a telefonista quem fazia a ligação, indicando em seguida uma cabine onde o interessado conversaria com a pessoa conectada. Filas, inclusive longas, não eram raras. Vendedores compravam um pacote de fichas e ficavam longo tempo em aparelhos que faziam ligação local direta.
Já na década de 90, mais residências passaram a ter telefone.

Mesmo assim, quando alguém estava participando de um processo seletivo de emprego ou esperava algum agendamento médico, precisava ficar em casa. Não podia sair sob pena de perder o emprego tão esperado. Apareceu então o fax. Este logo passou a ser comprovante de transações comerciais. Era um aparelho grande, vistoso. Parecia ter chegado para ficar, logo desapareceu. Apareceram então os primeiros telefones sem fios. Eram grandes, não alcançavam longa distância, pareciam enormes tijolos, com antena. Nesse período, já bem perto de nós ninguém imaginava a chegada dos celulares, menos ainda suas multifuncionalidades.

Tudo isso tem grande impacto sobre a vida das pessoas. Mas este não é percebido. É intensa a capacidade de adaptação dos indivíduos a novas situações. Parece ser que sempre foi assim. Mas as mudanças foram acentuadas. Inexistência de telefone, ligação via telefonista, telefone com ficha, fax e celular, a exemplo de qualquer outra tecnologia, tiveram intenso processo de inovação e, ao mesmo tempo, de sucateamento.

Não foram feitos para durar, eram apenas mais uma etapa de um desenvolvimento em curso. Isso também tende a acontecer com as pessoas. Um profissional com 50 anos ou mais, não obstante formação esmerada, atualização constante e larga experiência, tende a ser considerado obsoleto. Inclusive na família, quando um pai idoso ou avô emite uma opinião calcada na experiência de vida, familiares mais jovens tendem a desconsiderar.

Já foi o tempo em que uma pessoa ficava todo o dia em casa para receber uma ligação telefônica tratando de assuntos relevantes. Hoje olhamos o celular a cada minuto, inclusive quando a lei de trânsito proíbe ou estamos numa reunião festiva ou de trabalho. Não podemos esperar. Curiosidade e ansiedade se aliam nessa necessidade absurda de novidade, quando importante de verdade é o momento que estamos vivendo, o que vemos ao nosso redor, o que está sobre a mesa, as pessoas com quem estamos interagindo.

Preferimos o que é rápido, ligeiro e veloz. Grande parte do atual vazio existencial tão presente no interior de muitos vem dessa preferência por aquilo que desaparece rapidamente, dura pouco, efêmero e passageiro. Todo ser humano, por natureza, deseja viver uma vida com sentido.