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Igreja é um serviço essencial?

publicado em 5 de março de 2021 - Por Antônio Carlos de Almeida

A pandemia ameaçadora, que há um ano nos assola, põe por terra, devasta, arruína, destroi, põe em grande aflição, consterna e agonia, vem trazendo consigo algumas questões fundamentais.

Estas requerem pesquisa, diálogo e definições. Acentuado alvoroço ocorre na determinação de serviços essenciais, que podem ficar abertos durante a quarentena, e na definição de empreendimentos supérfluos, que têm maiores restrições em seu funcionamento.

A relação do que abre e do que fecha, em cidades grandes e pequenas, vem requerendo uma prática multidisciplinar dos comitês encarregados dessa decisão, o que é bom para a democracia. Aumentam-se as chances de chegar ao que é bom e justo para a sociedade e para os seus diversos segmentos.

Mesmo assim, muitos manifestam sua contrariedade, em alguns casos, se associam para manifestar sua discordância e tornar público os seus prejuízos. A manifestação da contrariedade também é inerente à democracia. São aprendizados que nos vieram por meio da crise aguda que estamos atravessando, esperançosos de luz permanente no final desse longo túnel.

Recentemente, o governador paulista incluiu igrejas no conjunto dos serviços essenciais, flexibilizando o seu funcionamento inclusive em fases mais restritivas, desde que atendam a todos os protocolos de segurança sanitária. Daí me veio a pergunta: “Igreja é um serviço essencial”?

Em si, parece-me que sim. Em geral, não. Surgiram nos últimos anos uma quantidade e uma variedade grande de igrejas. Algumas resultam de indivíduos ou grupos que procuram maior intimidade com Deus e uma orientação religiosa mais radical.

Outras surgiram de brigas ou divisões de congregações já existentes, carregando consigo acentuada dose de individualismo, o que certamente contradiz com várias características de igrejas verdadeiras. Também existem aquelas que deixam transparecer objetivos escusos de fama, poder e dinheiro por parte dos seus fundadores ou mantenedores. Outras, ainda, estão tão preocupadas com os seus dogmas ou requintes de liturgia que não percebem a agonia dos seus fiéis, submetidos aos rigores da pandemia.

Toda religião é um conjunto de crenças e filosofias que são seguidas, formando diferentes pensamentos. Cada religião tem suas diferenças quanto a alguns aspectos, porém a grande maioria se assemelha em acreditar em Deus como ser supremo, na vida após a morte e nos comportamentos que levam ao encontro definitivo com ambos. Nesse sentido, igrejas, assembleias, congregações, templos, salões, terreiros, células, pequenas comunidades e outras formas de organização são serviços essenciais, principalmente em circunstâncias de catástrofe.

Nesse sentido, igreja é um serviço essencial na medida em que ajuda o fiel a entender as trevas atuais com o ensinamento divino; na medida em que ajuda a superar as atuais dificuldades, que não são pequenas nem poucas; na medida em que fortalece a solidariedade tão necessária; na medida em que ajuda a vislumbrar a vitória da vida não obstante a quantidade absurda de mortes que nos rodeia; na medida em que apoia a retomada de pessoas e de empreendimentos que se encontram abalados por sequelas da pandemia; na medida em que propiciam reuniões e celebrações plenas de sentido humano e de consolação divina.

A reunião presencial nos locais de culto é sempre desejável em função de seus inúmeros frutos para a vida terrena e eterna. Mas em dias e noites de tantos riscos de contágio, pode ser substituída por orações individuais no aconchego do próprio quarto, em pequenas reuniões familiares ou mediadas pelos diversos meios de comunicação hoje disponíveis. Essencial mesmo é a presença de Deus em nossas vidas e o apoio comunitário para aqueles que, pertencendo ou não à nossa igreja, sofrem mais intensamente a desolação no quadro da crise que nos abarca.