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Halloween, blackfriday e Thanksgiving Day

publicado em 28 de novembro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Fiquem tranquilos, como sempre, a coluna será escrita em Português. Para escrever, precisei procurar a grafia dessas três palavras inglesas, como tantas outras que frequentam o nosso cotidiano.

Em tempos de colonialismo diríamos que essa americanização da língua é a do próprio país. Em tempos de globalização diríamos que esse é um processo necessário na medida em que os meios de comunicação e de locomoção diminuíram as distâncias e vão gerando uma espécie de língua universal.

O fato é que no caso de Halloween, blackfriday e Thanksgiving Day a questão vai além de uma tendência de linguagem: são costumes estrangeiros assimilados rapidamente por brasileiros e pessoas de todo o mundo.

Halloween, inclusive nas escolas, tende a superar festas e figuras do folclore brasileiro: festa junina, bumba meu boi, folia de reis, congada, festa do divino, círio de Nazaré, cavalhadas, boi tatá, curupira, saci pererê, mula sem cabeça, caipora, boto, cuca, etc.

Na medida em que folclore integra a cultura de um povo, esse evento importado tende a ocupar espaço em nossa cultura. Isso pode ser visto como deterioração ou enriquecimento de nossa cultura. Estamos diante de uma questão relevante para antropólogos, sociólogos, teólogos e educadores. Alguns símbolos estão sempre presentes no dia das bruxas: abóboras com caras, morcegos, aranhas, fantasmas, caveiras, gatos pretos, zumbis. As abóboras com velas acesas servem para iluminar o caminho dos mortos.

Está ligada a uma lenda irlandesa segundo a qual a alma de um homem não foi aceita nem no céu nem no inferno, perambulando a esmo. Os gatos pretos surgem em decorrência da sua associação à maldição e ao azar, enquanto os zumbis são cadáveres em busca de vingança. Pode até ser um evento divertido, mas pouco edificante do ponto de vista alimentar (quantidade de doces), folclórico e religioso.

Nestes dias estamos saturados de ofertas típicas do blackfriday, data com finalidade única de promoção comercial. Muita gente acaba comprando o que não precisa, com a ilusão de que está aproveitando de excelente oportunidade. O termo quer dizer literalmente “sexta-feira negra”.

Há vestígios de que a denominação surgiu no início dos anos 90 na Filadélfia, quando a polícia local chamava de blackfriday o dia seguinte ao feriado de Ação de Graças. Havia sempre muitas pessoas e congestionamentos enormes, já que a data abria o período de compras para o natal. A primeira blackfriday do Brasil aconteceu em 2010 e foi totalmente online.

Hoje, está presente em todo tipo de publicidade, propaganda e comércio. O mote é sempre o mesmo: promoção imperdível. O importante é comprar, empenhando recursos financeiros atuais e futuros, estes na forma de suaves prestações que virão durante meses, tornando inesquecível essa sexta-feira de novembro.

Dos três eventos, o Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day) parece-me ser o mais profundo e edificante. É um feriado celebrado sobretudo nos Estados Unidos, no Canadá e nas ilhas do Caribe, observado como um dia de gratidão a Deus, com orações e festas, pelos bons acontecimentos ocorridos durante o ano. Familiares americanos se juntam nesse dia como fazemos no Natal. No prato principal do farto jantar está sempre o peru, e na sobremesa, torta de abóbora.

A origem dessa festa é bem interessante. Está ligada a uma grande colheita depois de um ano extremamente difícil. Em 1621, os colonos de Plymouth, em Massachusetts, e os indígenas celebraram a colheita de outono com um grande jantar – acredita-se que esse foi o primeiro banquete de Thanksgiving da história. A celebração tinha um motivo bem importante. O inverno anterior havia sido brutal. A maioria dos colonos passou a estação abrigada em um navio – o veículo que usavam em suas explorações – e foram expostos a doenças contagiosas. Apenas metade do povo sobreviveu para ver sua primeira primavera em Massachusetts.

Interessante essa atitude de dar graças a Deus mesmo no final de um ano difícil como este nosso de 2020. Normalmente, como ocorre em outras festas agrícolas, é a festa da fartura na colheita, consequentemente, na despensa e na mesa da família. Já estamos com saudades da reunião familiar mais ampla, atraindo inclusive aqueles que vivem, estudam ou trabalham longe de casa. Edificante esse voltar corações e olhos para o alto, dando graças a Deus. Infelizmente, dos três eventos americanos – Halloween, blackfriday e Thanksgiving Day – este é o menos adotado por brasileiros.

Há um grupo de religiosos bragantinos, de diversas denominações religiosas, que na quarta quinta-feira de novembro se reúne na praça central para dar graças a Deus. Nesse ato ecumênico sinalizam-nos que, quando a alma não é pequena, é possível a união e a convivência dos seres criados à imagem e semelhança de Deus. “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre” (Salmo 106).