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Foi Deus quem me deu

publicado em 22 de setembro de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Vi de passagem um automóvel importado, grande, estacionado. Já um pouco antigo. Observei um colante em sua traseira: “Foi Deus quem me deu”. Passei logo depois pelo mesmo local. Vi então que o mesmo veículo tinha outro colante no vidro traseiro: “Vende-se”. Embaixo constava o celular daquele que foi presenteado por Deus. A partir dessa observação, fiquei refletindo sobre valores e incongruências de ambas as frases.

Embora Deus possa presentear excepcionalmente a alguém, o certo é que Ele presenteia a todos durante todo o tempo: natureza rica e disponível, o sol que ilumina e aquece, as estrelas que brilham, as águas que refrescam, o solo que produz e guarda muitas riquezas, a saúde, a inteligência, a capacidade de trabalho e a interação dos semelhantes entre si. Juntando tudo isso, é possível uma vida agradável sobre a terra. Cada um de nós foi agraciado por Deus com o dom da vida e a capacidade desenvolvê-la ao longo dos anos.

Também é verdade que por meio da fé é possível que alguém alcance de Deus um favor especial. Esse tipo de oração é comum em Igrejas Pentecostais, em que se exercita um contato direto com Deus por meio do Espírito Santo, conforme as promessas de Jesus ao longo de sua missão terrena. “Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta” (Mateus 7,7). Jesus afirmou aos seus ouvintes: “Eu asseguro que, se vocês tiverem fé e não duvidarem, poderão dizer a este monte: Levante-se e atire-se no mar, e assim será feito. E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão” ( Mateus 21, 21-22).

Não obstante essas promessas e muitas outras, existem situações difíceis de desemprego, doença e morte, em que, apesar das orações perseverantes, parece que Deus não ouve prontamente. Nesses momentos e mesmo quando o desfecho definitivo é negativo, por exemplo a morte depois de longa e dolorosa enfermidade, é comum observar que a fé prevalece.

A presença de Deus é notada mesmo quando a resposta não chega da forma esperada. Os desígnios de Deus podem ser menos imediatistas do que os nossos desejos. Importa então fazer a vontade de Deus tal como ela se apresenta. Isso não significa mera resignação, expressa uma compreensão que vai além da nossa perspectiva terrena. Aqueles que enfrentam situações dolorosas durante algum tempo, costumam dizer que saíram renovados desse sofrimento, com nova perspectiva de vida, valorizando inclusive coisas bem pequenas, antes desprezadas ou relegadas a segundo plano.

Permanecer na fé quando realizamos alguma conquista é um pouco mais fácil. Perseverar em momentos difíceis ao longo de dias, semanas, meses e anos é mais difícil. O próprio Jesus passou por isso no alto da cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mateus 26,46). Saber abandonar-se nas mãos de Deus é um dos ensinamentos evangélicos de maior alcance, simultaneamente, mais exigente. Estamos aqui diante do primeiro mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o entendimento” (Mt 22,37).

Na história do automóvel acima, o que mais me chamou a atenção foi o fato do agraciado estar vendendo o presente que recebeu do próprio Deus. Humanamente, não é comum vender objetos que recebemos de presente da parte de parentes ou amigos. Soa como desfeita. Mas pensando bem, é muito comum que a gente se desfaça dos presentes divinos.

Fazemos isso quando não cuidamos suficientemente de nossa saúde; pior ainda quando a prejudicamos por alimentação exagerada ou desequilibrada e por vícios. Fazemos isso quando depredamos bens da natureza para auferir algum resultado financeiro. Fazemos isso quando agredimos a pessoas da nossa família ou da nossa convivência. Fazemos isso quando não desenvolvemos todo o nosso potencial intelectual ou quando não colocamos em ação todo a nossa capacidade de trabalho. Fazemos isso quando desperdiçamos alimentos que entram em nossa casa ou são colocados sobre a nossa mesa. A vida e tudo aquilo que a sustenta são preciosos dons de Deus, merecem todo cuidado e especial gratidão.