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Festas de final de ano são momentos difíceis para muita gente

publicado em 28 de dezembro de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

A preparação e a movimentação das festas de final de ano passam a impressão de que todos estão igualmente felizes. Essa impressão generalizada não corresponde à realidade daquilo que vai no íntimo de muita gente. A realidade costuma ser de ansiedade, angústia, dor e, inclusive, acentuada solidão. Esse sofrimento, diante de tantos festejos, viagens e certa obrigação de transparecer alegria e felicidade, se torna ainda mais agudo.

Do ponto de vista psicológico, a euforia de novembro e dezembro, com seus enfeites, a maioria luminosos, com suas compras e preparativos imediatos, assim como a expectativa de reuniões animadíssimas com amigos e parentes, logo na noite do dia 25 de dezembro ou do dia 01 de janeiro pode ser substituída por um vazio enorme, independentemente da qualidade dos eventos festivos dos quais participamos. É duro voltar à realidade pessoal, familiar ou profissional. Toda a agitação recente é substituída por um marasmo intenso.

É comum a torcida para que os dias e as noites passem rapidamente de forma que a primeira semana cheia de dias úteis de janeiro chegue logo. Assim, será possível retomar a rotina, iniciar projetos ou dar sequência àquilo que vinha realizando nos últimos tempos. Existem, no entanto, situações pessoais e familiares mais difíceis, em que apenas a chegada de dias úteis não é suficiente para amenizar a dor do vazio ou da incerteza.

Sofrem muito neste período pessoas que recentemente perderam entes queridos. É intensificada a dor daqueles que estão doentes, seja porque é mais difícil encontrar atenção médica neste período, seja porque preso numa cama observam as idas e vindas típicas de férias de pessoas que gostariam de ter mais tempo a seu lado, para apoio, orientação, atenção e carinho.

No atual estágio de desenvolvimento tecnológico, esse contraste entre aquele que isoladamente sofre e aqueles que rodeados de gente se divertem, recebe novos contornos: abrir uma garrafa de vinho, cortar um panetone, cantar ou dançar, sentar-se numa cadeira de praia… instantaneamente está presente no facebook, instagram, whattsapp e outros aplicativos. A festinha parece ser maior do que realmente é. A dor do isolamento, de não ter sido lembrado ou convidado, talvez seja hoje uma das maiores dores. Muitos travesseiros aparam lágrimas que escorrem copiosamente enquanto o celular emite sinais sonoros de mensagens que procedem de uma balada.

Outro fenômeno doloroso desse período é que crises latentes vêm à tona na medida em que parentes estão mais próximos uns dos outros. A expectativa é de encontro, diálogo e troca de afagos. A realidade é de cutucadas, cobranças, comparações e, infelizmente, com frequência, desavenças. A presença de pessoas alcoolizadas torna esses confrontos e ambientes que seriam de confraternização familiar, ainda mais explosivos.

Muitos pais e mães vivem dias de grande apreensão. Gostariam de presentear filhos, comprar um brinquedo, uma roupa ou um calçado novo, mas passam os dias, aproximam-se as festas sem que o recurso necessário para a aquisição se torne viável. Para o desempregado, na medida em que ocorrem recessos na maioria das empresas, a perspectiva de um novo emprego fica adiada pelo menos para o final de janeiro. Profissionais autônomos também se defrontam com um paradoxo: justamente quando precisam de um pouco mais de dinheiro para as compras de final de ano, encontram mais dificuldade de conseguir trabalho antes e logo depois dos dias festivos.

Tenho a impressão de que festas de final de ano são dolorosas para muita gente. Nesse período, as emoções positivas e negativas são igualmente intensas. Uma mesma pessoa pode ter dias de euforia e, de repente, dias de depressão. As festas são apenas um momento, tem o alcance de nos oferecer a possibilidade de encontros e reencontros. Seu sentido verdadeiro deve ser buscado de forma criativa e responsável, está mais no íntimo de cada um do que no consumo exagerado. Está, sobretudo, no aprofundamento de nossa sensibilidade para aquilo que vai no coração e na realidade cotidiana das pessoas que nos são próximas por laços de parentesco ou de amizade. A boa ação é duradoura, traz paz ao doador e alegria ao que recebe.

O ensinamento é de Jesus no Evangelho de Lucas: “Como vocês querem que os homens lhes façam, da mesma maneira lhes façam vocês. Se amarem aos que lhes amam, que recompensa vocês terão? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerem bem aos que lhes fazem bem, que recompensa terão? Também os pecadores fazem o mesmo” (Lucas 6:31-33).

Felizmente, nesta época do ano, muitas são as iniciativas em benefício de pessoas carentes. Muita gente procura estar mais próximo de parentes idosos ou adoentados. Cresce o número daqueles que procuram a Igreja ou reservam um pouco mais de tempo para um encontro mais aprofundado com Deus. Vale a pena ir ao encontro de pessoas que estão muito isoladas do convívio com parentes, amigos e colegas. Pode encontrar ali mais alegria do que numa festança pagã. “É dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado” (Francisco de Assis).