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Falar e escrever bem são um desafio intransponível para muitos

publicado em 10 de janeiro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Costumo escrever rapidamente, quase como quem fala. Muitas vezes vou da primeira à última linha sem qualquer interrupção. Não sou muito afeito a revisões do texto. Frequentemente, algum lapso ou erro de concordância é percebido durante a leitura da coluna já publicada. É sempre uma descoberta tardia e desconfortável. Sou sempre muito grato ao atento revisor do Bragança-Jornal.

Ao longo da carreira, coube-me muitas vezes selecionar profissionais para uma vaga de emprego ou corrigir prova de vestibular agendado. Nas duas ocasiões sempre coloquei muito peso em texto escrito pelo candidato. Continuo pensando que tanto um bom texto quanto um rudimentar diz muito das aptidões, qualidades e competências de uma pessoa.

Essa percepção é decisiva, visto que aquele que fala e escreve bem tende a aprender sempre mais. Com rapidez poderá progredir ainda mais em conhecimento da própria língua ou em competências ligadas à sua profissão. Por sua vez, aquele que não domina a escrita e a fala durante os anos de escola, dificilmente progredirá significativamente depois. Parece ser que a insuficiência se instala de forma definitiva, tornando-se instransponível com o passar do tempo.

Nesta semana, muita gente riu com uma derrapada do Ministro da Educação do Brasil. Abraham Weintraub escreveu ‘imprecionante’ ao enviar mensagem ao deputado Eduardo Bolsonaro. Queria dizer impressionante. Apagou rapidamente a mensagem. Mas já era tarde, já era de domínio público. Muita gente já se divertia nas mídias sociais.

Não é a primeira vez que o Ministro (da Educação) escorrega. Na mesma publicação, ele não utilizou hífen na palavra pós-doutorados. Ele já escreveu, por exemplo, “suspenção”. A palavra correta é suspensão. Conforme www.metropoles.com/Brasil/Política, “no Twitter ele já cometeu deslizes como “descente” (e não “decente”), “haviam emendas” (e não “havia emendas”) e “paralização” (em vez de “paralisação”).

As dificuldades em relação à fala e à escrita são democráticas. Frequentam escolas particulares e públicas. São comuns entre executivos e profissionais liberais. Estão presentes em muitos discursos políticos. Não é apenas uma questão de elegância, que por sinal, a língua pátria merece. É uma questão de correção, de lógica, de comunicação e de compreensão adequadas. É uma forma de evitar conflitos, desperdícios e inoperância. É uma questão de respeito àqueles com os quais estamos nos comunicando.

Vale a pena o esforço no aperfeiçoamento da fala e da escrita. Vale a pena o esforço dobrado daqueles que sempre tiveram e ainda têm dificuldades. É sempre possível avançar. Hoje os corretores de texto facilitam rapidamente correções necessárias.

É possível consultar um bom dicionário a partir do próprio celular. As mensagens longas merecem atenção. É fundamental dedicar atenção especial às mensagens rápidas e curtas que postamos nas mídias sociais. Costumo evitar abreviações desnecessárias, utilizo pontuação, não dispenso a concordância verbal. Sempre releio para ver se o texto dá conta da mensagem que desejo transmitir. Admito que já enviei mensagens que não foram bem compreendidas.

A comunicação atual, sempre sucinta, cheia de símbolos e rápida, é bem interessante. Mas está nos levando cada vez mais a menos leitura. Já não lemos jornais e revistas inteiras. Ficamos satisfeitos com os títulos e algumas poucas linhas que aparecem na internet.

Dispensamos dados importantes da informação, deixamos de lado qualquer possibilidade de uma análise mais profunda. Na medida em que uma boa escrita depende de boas leituras, é possível que num futuro próximo nossas dificuldades em relação à correção linguística e gramatical sejam ainda maiores. Aqueles que falam e escrevem bem são portadores de um diferencial competitivo relevante nos momentos decisivos da vida, principalmente, no campo profissional. Mais uma vez, minha gratidão ao corretor do Bragança-Jornal.