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Esperança, indignação e coragem

publicado em 25 de agosto de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

“A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”

Esse pensamento é de Agostinho de Tagaste, que tem forte presença em Bragança Paulista por meio dos padres agostinianos. Antigamente no Colégio São Luiz e no Seminário Santo Agostinho, atualmente na Escola Santo Agostinho e na Paróquia da Vila Aparecida, no Hotel Santo Agostinho e no restaurante popular. Apesar de ter vivido no longínquo período de 354 a 430 dC, continua atual, influente e referência para questões humanas, filosóficas e teológicas. Boa parte de seus escritos encontra-se disponível em boas livrarias em todo o mundo. Destacam-se a “Cidade de Deus” e as “Confissões”. É reconhecido como o doutor da Igreja mais influente em todos os séculos.

Sua figura humana é fascinante. Tendo nascido no norte da África, desde muito cedo frequentou boas escolas em Roma e, depois, em Milão. Sua inquietude o levou a experimentar praticamente tudo o que era oferecido pelo mundo da sua época. Isso causava grande preocupação à sua mãe Mônica. Viveu os prazeres da sua época, mas sempre em busca de um sentido mais duradouro para a própria vida. Aprofundou-se no conhecimento e na prática da oratória. Por isso passou a frequentar os sermões de Santo Ambrósio, grande pregador de Milão. Foi então captando os principais ensinamentos evangélicos. Foram a perseverança de Mônica e o interesse pela oratória decisivos para a sua conversão.

Ao se converter, tornou-se profundo estudioso do Mistério do Deus Uno e Trino, assim como adotou a vida comunitária dos primeiros cristãos como modo de vida. Logo passou a ter seguidores com os quais convivia. Desenvolveu uma regra de vida comunitária, ainda hoje seguida pela Ordem de Santo Agostinho e por diversas congregações religiosas, masculinas e femininas: “Um só coração e uma só alma orientados para Deus”. A fidelidade à Palavra de Deus, a intensa vida comunitária e a brilhante oratória levaram-no à função de Bispo da diocese de Hipona, no norte da África, atual Argélia. Esse modo de vida e as funções desenvolvidas ofereceram então uma base vital para os seus escritos.

Nessa linha, o pensamento que abre a coluna de hoje tem forte significado para o nosso dia a dia, sob qualquer dos aspectos que possa ser empregado: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.

A esperança não é passiva. É aquilo que se espera desejando. Agostinho, no entanto, acrescenta a indignação e a coragem. A primeira é extremamente necessária nos dias atuais. Vemos diariamente episódios que prejudicam a vida de adultos, idosos e crianças. Temos o hábito de não nos envolver, de não tomar posição e de não intervir. Tudo continua igual ou pior. Esperar é agir. É não se conformar com aquilo que não está adequado. Muita coisa seria modificada ao nosso redor na medida em que a gente assuma um comportamento mais proativo.

O futuro, na expressão de Agostinho, depende de coragem: força ou energia moral diante do perigo, sentimento de segurança para enfrentar situações de dificuldade, determinação para realizar atividades que exigem firmeza, força física e emocional para suportar esforço que demanda tempo prolongado. Agostinho, cuja festa é celebrada em 28 de agosto, ensina, portanto, que esperar é fazer acontecer, a partir dos elementos já disponíveis em nós mesmos e ao nosso redor. É tempo de construir um Brasil melhor no embalo das eleições gerais que já estão em curso.