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Equilíbrio precário: desafios inadiáveis

publicado em 2 de junho de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Emiti em algumas ocasiões a opinião de que, aumentando o poder aquisitivo da população brasileira em 25%, teríamos dificuldade em encontrar gôndolas cheias nos supermercados e o trânsito seria ainda mais caótico em ruas e rodovias.

Essa opinião está fundamentada na percepção de que a inflação relativamente baixa desde o Plano Real, há mais de 20 anos, deve-se à redução drástica de dinheiro nos bolsos e bolsas dos brasileiros. Tudo está disponível nos mais variados tipos de comércio, no entanto, o acesso é limitado por um poder aquisitivo insuficiente.

Infelizmente, essa tese acaba de ser evidenciada no recente episódio da chamada greve dos caminhoneiros. Não foram necessários sete dias para que surgisse uma crise de abastecimento. A primeira e mais crítica deu-se no setor de combustíveis.

A partir desta, muito rapidamente começaram a faltar ovos, verduras, frutas e, inclusive, medicamentos. Impressiona mesmo é a velocidade desse desabastecimento, assim como a ansiedade, para não falar no pânico que se instala na população.

Ao invés de comprar com moderação, todo mundo corre, compra mais do que necessita, enche tanque de combustível que nunca completou antes, gerando desequilíbrio ainda maior. O bom senso ausente em consumidores, no recente episódio, foi assumido por alguns comerciantes que delimitaram quantidade de produtos para cada compra individual.

Estamos num ano crítico para o presente e o futuro do Brasil. Aproximam-se as eleições de deputados, senadores, governadores e presidente da República sem que hajam partidos e nomes fortes para o enfrentamento dos atuais desafios.

Isso ocorre num cenário internacional de intensa competitividade e de várias e acentuadas crises em países e regiões inteiras. José Simão, humorista da Band e da Folha de São Paulo, diz que o país não corre o risco de se tornar uma Venezuela, corre o risco de se tornar uma “Venezueira”. Crise brava, acompanhada de pouco fazer e muita brincadeira.

Na crise recente dos combustíveis, muitos trabalhadores ficaram construindo alternativas para não comparecerem ao serviço. Não vi nenhum movimento de solidariedade, inclusive entre colegas, para chegarem ao trabalho. Por exemplo, ao invés de cada um ir com seu veículo, é possível fazer o combustível render mais para todos utilizando um mesmo automóvel para levar três ou quatro.

Já não temos muito tempo para construir alternativas consistentes para o pleito eleitoral que se aproxima. Precisamos então prestar muita atenção naqueles que se apresentarem como candidatos, escolher os melhores, banir de vez aqueles que apresentam evidências de corrupção.

Tanto a política quanto os partidos políticos continuam sendo necessários. São fundamentais para o pleno funcionamento da democracia, onde todas as opiniões, inclusive divergentes, devem ser levadas em consideração.

Chamar de volta a ditadura é uma tentação pouco recomendada. É conveniente que recuperemos, em conversas com pessoas que viveram esse período ou por meio de escritos sobre essa fase histórica, um balanço quanto a ganhos e perdas. Não foram poucos os que foram injustamente presos, torturados ou mortos.

Outro risco é eleger um salvador da pátria, como se um único indivíduo fosse capaz de superar todas as dificuldades que se apresentam. Risco bem maior presente no atual momento é a crença de que quanto pior melhor.

A presente conjuntura para a maior parte da população não é boa. Pior do que isso, inescapavelmente, é muito ruim. Caos é o estado em que predominam a confusão e o desequilíbrio totais: babel, barafunda, desordem. O país continua tendo enorme potencial de bem-estar para toda a população, mas isso depende de articulação de forças, de um projeto de futuro e, muito especialmente, da participação crítica e solidária de todos os brasileiros.