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Emocionante

publicado em 30 de março de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Durante o mês de fevereiro, em todas as escolas estaduais de São Paulo, alunos formaram chapas eleitorais, inscreveram as mesmas acompanhadas de suas propostas para o corrente ano, fizeram ampla divulgação e elegeram o grêmio estudantil. Esse processo tem o objetivo de desenvolver vivência da democracia, apoiar a direção da escola na busca de melhorias para a convivência e o processo de aprendizagem.

Em geral, as propostas estudantis revelam boa percepção da escola, tanto no que diz respeito aos seus pontos fortes, quanto às suas fragilidades. As chapas concorrentes congregam alunos de várias séries e de diversas idades. O resultado final costuma ser respeitado. Boa parte dos grêmios eleitos consegue desenvolver projetos em favor da sua escola. Ao longo do ano, membros da diretoria do grêmio participam de eventos fora da escola, em geral na Diretoria Regional de Ensino, o que amplia sua visão daquilo que está acontecendo no âmbito da educação.

Na escola em que trabalho, a eleição foi bem concorrida. Participaram da campanha e da eleição cinco chapas. A nova diretoria, eleita com um terço dos votos possíveis, incluiu, dentre suas propostas, a colocação de música durante o intervalo das aulas. Na mesma semana da posse, entregaram na escola uma caixa de som.

Demonstraram empreendedorismo. Dois dias depois a música estava presente no intervalo de aulas. Bonito de se ver. Quase todos os alunos do período estavam aglutinados na proximidade da caixa de som. A turma do primeiro círculo, bem próximo da caixa, dançava. Um segundo círculo ensaiava alguns passinhos. O terceiro círculo era formado por aqueles que gostam de observar.

Chegou-me então a notícia de que quem mais desfrutou da música é um aluno portador de múltiplas deficiências. Dentre outras, autismo. Bem na frente da caixa de som, diante de todos, feliz, dançava intensamente. Aquele que ficava no cantinho com sua cuidadora, se destacava agora nas atividades recreativas, para espanto, alegria e comemoração de alunos, funcionários e professores.

Não é uma atividade com apreciação unânime. Chegaram algumas poucas reclamações relativas à altura do som, ao repertório musical e, ainda, quando ao tipo de dança. Direção da escola e diretoria do grêmio, dentro da dinâmica própria da democracia, precisaram conversar e fazer algumas reuniões para ajustar esses quesitos, tornando-os mais adequados ao ambiente escolar e minimizando ruídos que possam incomodar vizinhos, embora essa atividade seja realizada no período diurno.

A primeira tentação é a de censurar e proibir músicas que a adultos possam parecer inadequadas. Democraticamente, o caminho seguido foi o de dialogar com as partes, analisar algumas músicas com os líderes estudantis e adequar o repertório. A democracia nunca acaba na eleição e posse, ambas são apenas os dois primeiros passos de uma longa jornada em busca do bem estar geral.

Emocionante. Nesta semana a escola recebeu a visita da sua supervisora de ensino. No intervalo das aulas ela foi apreciar a música e a vibração dos alunos que se divertiam com a música. Lá estava o menino autista dançando com toda a sua energia, despertando admiração de todos. Percebendo a presença da supervisora, a quem não conhecia, deixou a música e a dança, caminhou na sua direção e lhe deu um demorado abraço apertado. Muitos olhos ficaram marejados ao redor. Aquele que tinha pouca interação com colegas e professores, agora era o protagonista.

É sempre extraordinário quando conseguimos estabelecer a comunicação verdadeira com aquele que está em nosso meio e passa despercebido na maior parte do tempo. Extraordinário e emocionante.