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Em segredo pode?

publicado em 9 de fevereiro de 2019 - Por 3

Os senadores eleitos em outubro passado tomaram posse de seu cargo, um dos mais altos da República, no início de fevereiro. A exemplo do que ocorre em todas as casas legislativas, a primeira deliberação é a eleição do presidente e da mesa diretora. Apenas 81 senadores, poderia ser uma decisão simples e rápida. Foi uma confusão geral. Parte dos senadores queria manter o regimento, que determina eleição secreta. Outra parte queria voto aberto, para acompanhamento dos colegas e de todos os eleitores. O mais incrível é que nenhum dos dois grupos estava preocupado com o aperfeiçoamento do sistema de constituição da mesa diretora. Ambos acreditavam que o fato de ser voto aberto ou o fato de ser secreto determinava o resultado de tal eleição.

Não estamos diante de pessoas inexperientes, indecisas. Praticamente todos os senadores já foram vereador, prefeito, deputado estadual ou federal, governador ou, inclusive, presidente da República. Como pode alguém tão representativo do ponto de vista social ou político, ter dois votos diferentes? Pessoas de caráter têm uma só posição, seja esta pública ou privada.

Não conseguiram eleger o presidente no primeiro dia. Correram para o STJ. Foi necessário realizar nova sessão no dia seguinte. Tudo isso recheado a uma porção de baixarias. Com alguma esperteza, o único remanescente da mesa diretora, tendo assumido a presidência para conduzir a sessão, como manda o regimento da Casa, permaneceu sentado na cadeira do presidente, não saiu de lá, para evitar manobras ainda mais vergonhosas.

Tudo isso constituiu um conjunto de atitudes mesquinhas, tristes e, inclusive, desanimadoras. A maioria foi eleita em outubro com a promessa de mudança. O eleitorado levou as promessas muito a sério, dos 54 senadores eleitos agora, apenas 8 chegaram ali de novo por meio de reeleição. Todos os demais são novatos. E já chegam com essas bravatas todas, enquanto os eleitores tinham o direito de esperar discursos fortes, promessas consistentes, sinalizando dias melhores para o conjunto da população e para o próprio país no atual cenário internacional. Estamos com o gosto amargo de mais do mesmo. Esses fatos no Senado Federal nos indicam que não é fácil mudar.

Esse acontecimento indica que a mudança é difícil, porque o jeito de ser de brasileiros de todas as idades e de todas as posições profissionais ou políticas comporta essa duplicidade: o comportamento escondido nem sempre é igual ao comportamento visível. Atitudes inadequadas, apropriação indébita e danos a propriedade alheia são realizadas na medida em que isso fique escondido. É assim com crianças pequenas, é muito frequente no meio estudantil adolescente e juvenil, não é raro em ambientes profissionais, é muito comum em ambientes políticos, também está presente no âmbito religioso.

A honestidade, a sinceridade e a franqueza precisam ser mais valorizadas. Um dos caminhos é não aceitar falcatruas por menores que sejam os valores em jogo. Outro caminho é valorizá-las em todos os processos educacionais, sejam familiares, escolares e religiosos. Do ponto de vista político, cabe aos eleitores acompanhar e vigiar os seus eleitos. Muitos são os processos judiciais em curso envolvendo autoridades, a serem acompanhados pelos eleitores. É longo e duro o processo de saneamento. Não podemos esmorecer.

“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que Ele escolheu para lhe pertencer. O Senhor olha dos céus e observa toda a humanidade, do seu trono Ele contempla todos os habitantes da terra (Salmo 33) … e não há criatura alguma incógnita aos olhos de Deus. Absolutamente tudo está descoberto e às claras diante daquele a quem deveremos prestar conta (Hebreus 4,30).