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Ecos dos Diálogos de Museu para mais do que uma Semana da Independência

publicado em 11 de setembro de 2018 - Por Ambiente em Pauta

Na última semana as mídias foram tomadas por uma grande comoção devido ao incêndio no Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Para quem não sabe, a assinatura do decreto de Independência foi feita no local onde se situava o Museu Nacional incendiado, em 02 de setembro de 1822, mesmo dia e mês em que o perdemos na última semana.

Quem assinou o decreto foi uma mulher: a então princesa interina regente do Brasil, Maria Leopoldina, esposa de D. Pedro. Só cinco dias depois da assinatura do Decreto é que D. Pedro I receberia o aviso e daria o Grito do Ipiranga em São Paulo – essa era a velocidade dos acontecimentos da época. Hoje a velocidade da informação, e sua transformação em conhecimento é o que comanda os territórios, a produção, os sigilos financeiros e o ritmo das nossas vidas, ou, de grande parte das vidas nas cidades e no campo.

Na mesma velocidade que vem a informação, vem a desinformação – ou seria falta de conhecimento? Das leituras truncadas/incompletas, as conclusões tiradas de manchetes sensacionalistas. No caso do Incêndio do Museu Nacional não foi diferente, as barbaridades nas redes sociais atribuindo a grupos ou questões ideológicas o fim de um patrimônio incalculável, bem como as declarações no mínimo vergonhosas de gestores públicos sobre a reconstrução do Museu – me explique como se reconstrói um acervo com fósseis únicos, materiais antropológicos de grupos indígenas que nem existem mais? São apenas alguns indícios do grau de ignorância sobre o que perdemos.
Perdemos com o incêndio mais de 20 milhões de itens de geologia, botânica, paleontologia, zoologia e arqueologia. Muitas eram peças únicas no mundo, como Luzia, fóssil humano mais antigo na América, ossadas de dinossauros do território nacional, um meteorito encontrado em 1794 na Bahia, a maior coleção de egiptologia da América Latina, trono do Reino de Daomé, coleção de arqueologia clássica, artefatos de civilizações ameríndias.

Milhares de peças eram utilizadas como referência de estudos de espécies, culturas (…) . Um banco de dados tridimensionais foi incinerado. Além da perda material irreparável, há ainda a perda de caráter simbólico: um povo sem seu patrimônio (seja ele material ou imaterial), é um povo que se perde de sua história e identidade, e sem identidade, como compreenderemos os caminhos para a construção do que é cidadania?

Na semana em que comemoramos a Independência do Brasil, que demorou cinco dias a cavalo da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro ao Rio Ipiranga, em São Paulo, tivemos uma perda simbólica e material que mostra que não chegaremos à independência tão cedo, lento que somos ainda hoje. A Independência numa sociedade inserida na quarta revolução tecnológica passa pelo conhecimento, pela educação, pela ciência. Como bem citou o internauta Leo Aversa “O Prédio do Museu Nacional não deve ser reconstruído. Deixem como está, façam apenas passarelas para que as pessoas circulem pelos escombros e pelas cinzas.

Será o Museu do Descaso, onde as crianças aprenderão o que acontece quando não se dá nenhuma importância para a ciência e para a cultura. No Museu do Descaso veremos pó de dinossauros, de múmias, dos vinte milhões de itens que estavam lá. O que que resistiu a milhões de anos, mas desapareceu em algumas horas por negligência e omissão. Se a gente não consegue acertar, que os próximos aprendam com nossos erros.” PARA SABER MAIS! Rede Nacional de Identificação de Museus.

O que tem na sua cidade? Na sua região? No Brasil? Neste mapa interativo você se surpreenderá com a diversidade da localização e acervos. Link: http://museus.cultura.gov.br/busca/##(global:(enabled:(space:!t),filterEntity: space,map:(center:(lat:-22.62415215 809041,lng:-48.482666015625),zoom:6),open Entity:(id:8069,type:space)),space:(filters: (‘@verified’:!t)))

Patrícia Martinelli, Geógrafa, colaboradora do Coletivo Socioambiental Bragança Mais