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Do excesso de exterioridade à busca da interioridade

publicado em 9 de março de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Nossas festas atuais dependem muito de aparatos externos, arranjos, fantasias e bebidas. As recentes fantasias de carnaval levam essa dependência ao extremo. Mas isso também ocorre em nossas festinhas de aniversário, de final de ano e em outros encontros de amigos. É grande a preocupação com o que vestir, comer e, principalmente, beber. Nos costumes atuais é muito raro festejar sem o consumo de bebidas. Também comum é recorrer a estimulantes ilícitos.

Pouca gente vai à praia sem levar uma grande caixa térmica de bebidas. Se não leva, consome bebidas vendidas nas barracas. Numa churrascada estão sempre juntos, durante horas seguidas, excesso de comida e de bebida. O mesmo ocorre nas feijoadas, rodadas de pizza, porco no rolete… Pessoas bem relacionadas facilmente frequentam três ou mais festas num final de semana. E, também, em dias úteis.

Não obstante essa grande quantidade de festejos, o vazio, a tristeza e a depressão são muito frequentes. Alguns correm para conseguir novos convites para preencher lacuna tão dolorida. Outros desenvolvem dependência química. Mais gente poderia procurar apoio de profissionais da área psicológica ou de orientação religiosa para encontrar um sentido de vida menos dependente de exterioridades. Estas sempre passam rapidamente, são fugazes, com frequência deixam um gosto ainda mais amargo do que a ressaca física.

Não estamos diante de um fenômeno recente. Agostinho de Tagaste, lá no século IV, depois de viver todos os prazeres sensoriais disponíveis no mundo de então, faz uma descoberta importante: “Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio”.

A exemplo da noite diária, do outono e do inverno, quando a natureza se recolhe, para em seguida explodir em cores, luzes e vida, a quaresma é um tempo de recolhimento e de transformação. Já foi mais rigorosa quanto a recolhimento, abstinência de carne e jejum. Mas continua sendo um tempo precioso de buscar a interioridade. Isso é fundamental para uma vida feliz. Médicos recomendam-nos com frequência uma alimentação frugal, psicólogos nos ajudam a entrar em nosso âmago e identificar a nossa verdade pessoal e líderes religiosos nos orientam na busca de Deus. Neste março e abril encontramo-nos num tempo propício para a transformação pessoal.

Convém que cada um de nós escolha um caminho: pode ser um tempo diário de meditação, pode ser a intensificação de boas leituras, pode ser algum tipo de jejum, pode ser a intensificação de atividades físicas e, principalmente, a busca de Deus por meio da oração. Cada um sabe o que lhe falta, o que lhe faz bem. O verdadeiro sentido da vida, a felicidade plena e a saciedade verdadeira não estão longe de nós, não estão nas exterioridades tão comuns.

Sobre este tema Agostinho escreveu vários livros, dentre os quais se destaca “As Confissões”. Profundidade, poesia e verdade estão presentes em seu texto que expressa muito daquilo que vai na nossa própria interioridade: “Tu estavas dentro de mim e eu fora. Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior.

Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo”.
Dentro estavas e fora eu Te procurava.