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Divulgação de dados de conservação e economia?

publicado em 15 de setembro de 2020 - Por Ambiente em Pauta
O MAPA PRELIMINAR AQUI APRESENTADO FOI FEITO E DOADO PARA O COLETIVO PELO ROGERIO DELL’ANTONIO E É UM PRODUTO INÉDITO DE REPRESENTAÇÃO DESTES DADOS.

O Instituto Florestal, órgão vinculado à Secretaria de Meio Ambiente, elaborou o novo inventário de vegetação nativa do Estado de São Paulo. O investimento envolveu tecnologia de ponta, com parcerias de órgãos e funcionários públicos altamente capacitados durante 15 meses de trabalho. Os dados disponibilizados em tabelas com percentuais de cobertura vegetal por município foram divulgados recentemente.

Na tabela de percentuais foi feita a relação da superfície de cobertura vegetal nativa dos municípios, os quais foram divididos em 5 grupos (classes), sendo eles os tinham menos de 10% do território com cobertura vegetal nativa, os que possuíam entre 10 e 15%; 15 a 20%, 20 a 50% e os que possuíam mais do que 50% do território com cobertura vegetal nativa.

Na nossa região encontramos os seguintes percentuais de cobertura vegetal nativa segundo o material divulgado: Bragança Paulista (20,3%), Atibaia (32,7%), Bom Jesus dos Perdões (54,5%), Joanópolis (33%), Morungaba (24,1%), Nazaré Paulista (44,45%), Pedra Bela (22,9%), Piracaia (29,9%). Tuiuti (19,3%) e Vargem (30,8%). Nossa região por integrar a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da cidade de São Paulo e ainda por ter parte significativa da região na APA da Cantareira, que garante proteção aos mananciais de abastecimento de água entre outros fatores, figura com percentuais de cobertura vegetal nativa relativamente superior a de regiões do estado como, por exemplo, a porção oeste que é dedicada à agropecuária.

O geógrafo Rogério Dell’Antonio elaborou uma representação prévia deste material divulgado para auxiliar a comparação em mapa da situação atual no Estado de São Paulo (Figura). De modo geral, a distribuição percentual da cobertura vegetal nativa está mais elevada em municípios do litoral, provavelmente pela presença da Serra do Mar e áreas de preservação associadas como fator relevante da preservação de fragmentos florestais.

Na porção da depressão periférica paulista, onde está localizada Campinas e Piracicaba, por exemplo, e no oeste paulista, há mais visivelmente a presença de vastas extensões com muitos municípios que estão representados entre aqueles possuem percentuais baixos de cobertura vegetal nativa.

Embora a maior parte da população do estado esteja concentrada na região de bacias hidrográficas mais urbanizadas e industriais da porção leste, a porção oeste do Estado com menor população é a que se apresenta mais devastada.

Esse arranjo espacial não é novidade e se replica em diversas escalas geográficas com arranjos similares, onde encontramos espaços dedicados à produção agropecuária com menor valor agregado dos seus produtos e serviços, e os espaços voltados para atividades de indústria e serviços e de comando do restante do território.

Cada vez mais tem sido feita a discussão sobre a relevância de se produzir economias e territórios mais resilientes, ou seja, que sejam capazes de absorver as crises. A conservação e diversidade são peças-chave deste processo de garantir resiliência. Usemos como exemplo uma cidade que é totalmente dedicada a uma única atividade/setor (pouca diversidade econômica). Se aquele setor passa por uma crise, toda a economia da cidade fica comprometida, porém não somente o município será afetado.

Passemos para a escala de região para entender a dispersão destes impactos. Imagine agora se grande parte do açúcar, leite e carne fossem base para os produtos industriais feitos aqui no leste do Estado e esses viessem unicamente do oeste paulista, e ainda que essa região vem devastando suas matas nativas para nos atender com “maior eficiência”. Lembremos que a devastação da vegetação nativa é um dos fatores de garantia de retenção e produção de água nos territórios.

Em algumas décadas o sistema hídrico destas cidades que produzem para nós cana de açúcar, leite, laranja, carne e álcool com irrigação do Aquífero Guarani ou mananciais comprometidos, começariam a enfrentar problemas sérios com a disponibilidade de água para irrigação e, consecutivamente, passam a não poder nos atender, levando à falta generalizada de matérias primas para nossas industrias, e comprometendo abastecimento, comércio e serviços de todas as regiões compradoras. Esse é um modelo simplificado que demonstra como a conservação e a diversidade passaram a ser a demonstração de que tipo de garantia uma economia robusta pode dar a quem depende de sua produção nestas complexas redes de relações. Essa lógica influencia todas as escalas da economia da local, regional, nacional e global.

Patrícia Martinelli, Geógrafa, integrante do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais.