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Degradação ambiental e coronavírus

publicado em 1 de abril de 2020 - Por Ambiente em Pauta

Estamos todos assustados, o mundo parado, todos sem saber sobre o dia de amanhã em meio a pandemia do Covid-19. Uma doença causada por um vírus que se espalhou pelo planeta, contaminando boa parte da população já seria uma luta na qual nós brasileiros deveríamos nos unir para enfrentar, mas não, infelizmente muitos estão travando uma guerra paralela – ao invés de convergir, há os que defendem a proteção da vida (isolamento social, redução de atividades) e os que defendem a proteção da economia (continuidade das atividades econômicas).

Os vírus são os únicos organismos acelulares da Terra, seres muito simples e pequenos formados por uma cápsula proteica envolvendo o material genético. O vírus é uma partícula sem metabolismo próprio que, para executar seu ciclo de vida, busca um ambiente que tenha o que lhe falta. Esse ambiente é o interior de uma célula que efetuará a síntese da proteína do vírus e, simultaneamente, fará a multiplicação do material genético viral; assim são parasitas obrigatórios do interior celular, pois se reproduzem pela invasão e controle da máquina de reprodução celular.

Os cientistas têm buscado identificar causas e formas de combate, desde vacinas à protocolos de tratamento. As pesquisas que tentam identificar o início do Covid-19, nos trazem uma relação direta entre a doença e o meio ambiente.

O mundo tem passado por grandes expansões, tanto de crescimento urbano quanto de industrialização. Com isso algumas doenças que estavam contidas, ou zoonoses específicas de animais silvestres acabam mudando seus ciclos e atingindo os seres humanos. No caso do Covid-10, a hipótese mais provável é que tenha origem em morcegos. Um estudo liderado pelo Dr. Vincent Cheng disse, em 2007 que sabe-se que os coronavírus sofrem recombinações genéticas, o que pode levar a novos genótipos e surtos. A presença de um grande reservatório de vírus do tipo SARS-CoV em morcegos, juntamente com a cultura de comer mamíferos exóticos no sul da China, é uma bomba-relógio. Há uma forte possibilidade de uma nova epidemia de SARS e outros vírus. Portanto, a necessidade de estarmos preparados não deve ser ignorada.

Outras pesquisas mais recentes indicam que uma questão cultural relacionada a alimentação pode estar diretamente ligada ao início desta pandemia, pois os morcegos (que não adoecem de Covid-19, por causa de seu especial metabolismo), passou o vírus para o pangolim (um animal que lembra nosso tatu que é muito procurado na China pelo sabor da carne e por ditas propriedades medicinais – fala-se nele, pois os estudos indicam que a Covid-19 é 99% igual ao vírus do pangolim), e passou dele para os humanos. Essa tripla passagem é rara, pois o curto espaço de vida do vírus exige que os três animais: o morcego, o pangolim e o humano, estejam junto no mesmo tempo e lugar – o local onde isso pode ter acontecido foi o mercado de Wuhan, onde animais vivos, domésticos e selvagens de todo o mundo ficam empilhados em engradados, e assim se contaminam e dali são comprados e consumidos por humanos.

Quando introduzido no ser humano, não dá tempo para o organismo se adaptar e criar um sistema imunológico para se proteger. O período em que o humano é assintomático e a facilidade da transmissão explica a rápida expansão da epidemia.

Em relação a Covid-19 a hipótese inicial é o consumo dos animais exóticos, mas o contato dos seres humanos com animais silvestres, seja por questões culturais ou impactos ambientais da diminuição dos habitats naturais podem incitar e diversificar doenças, já que os patógenos se espalham facilmente para rebanhos e seres humanos.

A preocupação com as mudanças climáticas também se relaciona a pandemias. Por exemplo, na Rússia, o permafrost [camada profunda de terra congelada] está descongelando, não sabemos o que aquele gelo vai ter, que tipo de bactéria, de vírus está ali guardado por milhões de anos. Esses patógenos podem ser soltos no ambiente e não se sabe como vai ser o ciclo desses microrganismos nos animais e nas pessoas.

Para os cientistas a culpa não é dos morcegos, mas sim da maneira como interagimos com as outras espécies que pode leva à disseminação pandêmica do patógeno. O coronavírus talvez seja o primeiro sinal claro, incontestável, de que a degradação ambiental pode matar os humanos com rapidez, e pode acontecer de novo. A destruição dos habitats é a causa, de modo que a restauração deles é a solução.

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Contribuição de Maria Cristina Muñoz Franco, colaboradora do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais.