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De quem você é o melhor amigo?

publicado em 31 de agosto de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

Inicialmente, o título era outro: “Quem é o seu melhor amigo?”. Mudei. Achei “De quem você é o (a) melhor amigo (a)” mais provocante, mais difícil de ser respondido, mais altruísta. A semana avançava sem que me viesse um tema para esta coluna.

De repente, duas meninas pequenas, chorosas, vieram ao meu encontro para dizer que havia algum desentendimento com uma terceira menina. Disseram-me então que esta era sua “bff”. Confesso que não entendi. Explicaram-me: “bff” vem de “Best friend forever”, que significa “melhor amigo para sempre”.

Achei profundo demais, avaliei que é uma expressão radical. Hoje, como sempre, não é fácil ser amigo. Mais difícil é ser o melhor amigo. Para sempre é algo que não combina com a fugacidade dos tempos atuais, em que tudo é descartável, nada é feito para durar.

Imagino que as meninas já esqueceram a briguinha daquele momento, enquanto nós nos encontramos diante do desafio de sermos bons amigos de pessoas que estão próximas ou distantes. Frequentemente, somos melhor amigo de pessoas que estão longe de casa e somos desatentos, grosseiros e até agressivos em relação a pessoas próximas, tais como cônjuge, filhos ou parentes próximos.

É comum dizer que alguém tem muitos amigos quando ele tem apenas muitos colegas de escola, de trabalho ou de clube. Ter colegas é bom, ter amigos é melhor. Aquele depende bastante de circunstâncias que levam à aproximação. Relação de colega é semelhante à boa semente que cai na beira do caminho, logo desabrocha porque não tem profundidade, com a mesma rapidez murcha sob o vento ou o calor do sol (Parábola do Semeador). A amizade, por sua vez, é algo mais profundo. É relação interpessoal, é comunhão, requer diálogo inclusive sobre assuntos divergentes, tende a perdurar ao longo de anos mesmo quando os amigos estejam fisicamente distantes.Tem raízes profundas. Dá muitos e saborosos frutos.

Amigos da infância são lembrados até a terceira idade, as brincadeiras daquela época continuam vivas. Amigos da juventude ou do tempo da faculdade continuam inspiradores, exemplos observados em tempos passados continuam iluminando decisões e ações. Muitos amigos são gerados no ambiente de trabalho, neste caso, projetos elaborados juntos continuam sustentando novos desafios. Na velhice, a lembrança dos amigos que marcaram presença em diversas etapas da vida é guardada e relembrada como ouro.

Existem pessoas que se mudam para prédios ou condomínios na expectativa de ter amigos próximos com quem interagir. Mas isso continua raro apesar da proximidade física. Seria a correria do dia a dia que teima em manter distância entre vizinhos? Seria uma espécie de proteção do próprio espaço individual, como se os vizinhos apresentassem algum tipo de ameaça?

O fato é a que a vida atual está muito centrada no indivíduo, em suas necessidades e em seus desejos. O fast-food sugere uma alimentação individualizada, o celular coloca na palma da mão as mais variadas informações e diversões, dentro de casa cada membro da família fica dentro de um cômodo. Sabemos mais do que acontece no mundo do que está ocorrendo com parentes e amigos.

Numa reflexão semelhante a esta, o Pe. Fábio de Melo afirma que “nós sempre precisamos de amigos. Gente que seja capaz de nos indicar direções, despertar o que temos de melhor e ajudar a retirar excessos que nos tornam pesados. É bom ter amigos. Eles são pontes que nos fazem chegar aos lugares mais distantes de nós mesmos”. Em momentos bons, festejam com a gente. Em momentos difíceis de doença, desemprego, relacionamento ou dificuldade financeira, se aproximam ainda mais. Quem é o seu melhor amigo? De quem você é o melhor amigo?