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De novo, a Mentira

publicado em 2 de abril de 2019 - Por Pedro Marcelo Galasso

O presidente Jair Bolsonaro usou os canais oficiais de comunicação do governo para fazer uma apologia mentirosa ao período histórico denominado de Ditadura Militar, mas que na visão deturpada do presidente não foi uma ditadura.

Para ele, o que experimentamos foi um regime que salvou o país de ameaças soviéticas que poderiam perverter a ordem e os costumes do Brasil.

Não é suficiente dizer que a ação do péssimo presidente, cujas promessas não cumpridas se avolumam a cada dia, atenta contra a democracia que, ironicamente, ele combate e que a mesma que ele alcançasse a presidência.

Negar a ditadura que tomou conta do Brasil entre 1964 e 1985 é de uma baixeza tão grande, um atentado tão ofensivo ao bom senso e a verdade dos fatos que deveria envergonhar até mesmo seus eleitores.

Negar a prisão e a morte de milhares de pessoas em um país que nunca admitiu a tortura, salvo o caso de Herzog, que nunca admitiu a prisão de estudantes e de intelectuais e que, hoje, defende que as prisões e mortes, sem exceções, foram justas, necessárias e pouco numerosas, nas palavras do próprio presidente, é negar o que somos.

A ditadura não foi uma revolução, foi um regime fechado que concentrou em suas mãos os demais poderes, Legislativo e Executivo, que impôs a censura nos jornais, nas escolas e nas universidades, que coleta relatos de torturas, de locais onde as prisões e as torturas foram covardemente praticadas, alguns transformados em museus, como o Memorial da resistência, em São Paulo, é um ato descabido e inconstitucional.

O fato da orientação política do presidente, seja ela qual for, nortear seu governo não o autoriza a mentir sobre a História recente do nosso país. A ditadura é um fato inegável, inquestionável e não pode ser desmentido por ninguém. A confusão sobre a ditadura é fruto da astúcia do governo militar que deu uma cara republicana ao regime imposto com a manutenção de um processo eleitoral mutilado e restrito, com a participação de dois partidos políticos e com o rodizio de seus presidentes.

É vergonhoso assistir um presidente que, por convicções obtusas e pessoais, nega um período tão doloroso de nossa História, talvez numa tentativa infantil, desesperada e perigosa de desviar o foco das crises políticas, familiares e institucionais que mancham seu mandato que, segundo ele, seria imaculado. Talvez para nos fazer esquecer o papel ridículo que seus partidários devem cumprir em busca pela aprovação de Maia no que tange as pautas da Reforma da Previdência, alvo do governo que teme a força política do presidente da Câmara e seus deputados federais. Talvez para que não façamos as seguintes perguntas – o que foi feito até agora para o país? Ou, outra – o que acontece no MEC? Ou, ainda – um presidente que prometeu tanto, por que fez tão pouco?

O esquecimento da Mentira sobre a Ditadura Militar é a aceitação da desumanidade e da ignorância que assola e que se apodera do Brasil.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com