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Cuidados psicológicos para suportar a crise

publicado em 21 de março de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Confesso que até agora, não obstante a imensa quantidade de informações e orientações, vi apenas uma articulista de jornal mencionar a necessidade de orientação psicológica para pessoas sadias ou infectadas pelo novo corona vírus. Estamos submetidos a ações e a reações para as quais não estamos suficientemente preparados. Algumas são tão inéditas e tão estressantes que requerem um apoio de profissional especializado na área.

Estamos todos envolvidos num processo de intensa ansiedade. Muitas são as informações, algumas contraditórias, outras equivocadas. Estamos sempre correndo atrás do último aspecto que foi divulgado. Conferimos no rádio, na TV e na internet.

Não bastasse isso, sempre chega um familiar, amigo ou colega com uma informação nova. Alguns destes são insistentes. Querem a todo custo que aceitemos sem mais a versão que está sendo apresentada ali. A ansiedade pessoal, que já não é pequena, é então reforçada por esse conjunto de fatores. Alguns conseguem manter senso crítico diante desse conjunto.

O senso crítico permite um certo distanciamento daquilo que nos preocupa, adiantando ações que se pode desenvolver ou planejando para um futuro próximo aquilo que pode esperar um pouco mais. Outros não conseguem esse necessário distanciamento.

Ficam ansiosos, atordoados, sofrem por antecipação. Em tempos de mídia social, essa turbulência é ainda maior. Quando vemos, nossa caixa já tem mais de cem mensagens. Muitas grosseiras, outras sem noção, duas ou três verdadeiras e consistentes. Grande parte é imediatamente compartilhada, alimentando ansiedade de outras pessoas.

Ainda existem eremitas. Pessoas que se afastam da convivência social para lugares ermos. Ali vivem a sós, numa procura verdadeiramente espiritual de Deus. São felizes na medida em que, depois de preparados ao longo de anos, se dedicam única e exclusivamente àquilo que faz sentido para a sua vida. O tempo de Quaresma, entre carnaval e Páscoa, em que nos encontramos, já foi um tempo de recolhimento, silêncio, penitência e oração. Nesse tempo, a exemplo do eremita, estávamos mais habituados ao recolhimento. Hoje nossa vida é caracterizada por extrema exterioridade. Corremos todo o tempo atrás de eventos, a maioria com muita gente, ruidosos, regados a bebidas, com proximidade física, abraços e beijos.

Repentinamente, recolher-se ao próprio canto, ficar isolado inclusive quando não há sintomas de contágio, esperar dias para ver se o contágio aconteceu ou não, é uma experiência inédita para a maioria das pessoas. Inédita e difícil. Muita gente terá tamanha dificuldade, que o mais indicado é recorrer à ajuda de algum profissional especializado em depressão. Aquele que estava trabalhando, sentir-se-á inútil. Poderá ocorrer medo de que descubram que não faz falta no ambiente de trabalho. A permanência em casa poderá gerar comportamento mais grosseiro, inclusive em relação àqueles com os quais divide o lar.

Também pode ocorrer aumento do consumo de alimentos desnecessários, de bebidas alcoólicas, de cigarros ou de entorpecentes. Aquele que sai de casa todo dia para encontrar amigos, poderá não suportar essa reclusão não planejada e não desejada. Pode não tardar o aparecimento de um tédio profundo, assim como saudades de parentes e amigos com os quais se encontra habitualmente. Isolamento, tédio, depressão e insegurança podem adquirir tal peso que requeira a orientação de profissional especializado.

A recomendação é extremamente objetiva: “ficar em casa, não sair”. Nesta semana, policiais e bombeiros esvaziaram praias. Isolamento não são férias. A determinação é ainda mais objetiva para idosos e portadores de moléstias crônicas.

Para não chegar à necessidade de uma orientação ou tratamento especializado, alguns comportamentos podem ajudar: manter uma rotina para dormir, levantar-se e fazer as refeições no horário certo; não exagerar na alimentação para não desenvolver sobrepeso; programar e realizar algumas atividades físicas para liberar hormônios que dão a sensação de prazer; fazer pequenos consertos em objetos de casa; dedicar-se à jardinagem; criar uma pequena horta (poderá ser útil na medida em que o controle da epidemia demore meses); ler e escrever; aprender ou aperfeiçoar conhecimento de línguas; desenvolver projetos; não aumentar o tempo que dedica à TV e ao celular em tempo de normalidade; estudar livros sagrados. E orar. Pode ocorrer que alguns saiam renovados dessa pandemia, com novos projetos de vida, mais centrados naquilo que é realmente essencial para uma vida verdadeiramente feliz.