Colunistas

Crianças tristes

publicado em 12 de outubro de 2019 - Por Pastor Jessé

“Os professores estão sofrendo de fobia escolar, antes um distúrbio psicológico exclusivo das crianças”, apontou Raymundo de Lima, professor de fundamentos da educação na Universidade Estadual de Maringá. A causa de tal fobia é total falta de valores e comportamentos recomendáveis por parte dos alunos, tanto nas escolas públicas como nas escolas tradicionais particulares. Havia erros no passado, mas a situação é pior hoje.

O diagnóstico dessa situação revela duas causas. Uma causa foi o surgimento da visão psicologizada do indivíduo. E, conectado a esta, vem a outra causa, que é o desaparecimento de pais que eduquem seus filhos. A visão psicologizada atual explica todos os comportamentos através da adoção de uma das “chaves” psicológicas, dentre as diversas correntes da Psicologia.

Essas “chaves” são divergentes, mas têm em comum a ação de eliminar a responsabilidade moral de cada indivíduo diante de seu comportamento. A responsabilidade e causa de atitudes erradas são sempre de outrem ou algo mais. O indivíduo se torna vítima, inimputável e intocável. E mais, prega-se que o bem-estar dele está acima de qualquer responsabilidade, acima até de valores morais, gerando um indivíduo autocentralizado.

Os pais, formados numa sociedade com essa visão, adotam essa perspectiva de vida autocentralizada e se tornaram irresponsáveis no compromisso conjugal, bem como confusos e inoperantes na educação de seus filhos. E mais, com o surgimento do “especialista” psicológico, como o único que tem o “segredo” da “cura”, foi roubada dos pais a segurança milenar de que eles são os que realmente entendem de filhos, portanto, da educação deles.

Diante das variadas definições das diversas psicologias sobre o que é o ser humano, os pais já não sabem que ser é o seu filho. Nessa incerteza só ficou certo o fato que o ser humano como ser moral e responsável, seja no papel de pai ou de filho, desapareceu.

Os pais não são mais capazes de corrigir e disciplinar, bem como não têm referência para estabelecer limites. Eles não têm convicções morais em si mesmos e por isso também não têm o que dar a seus filhos. O ato de amar que, além do orientar, deve incluir o disciplinar consistente e de forma sábia, foi suprimido.

Como o filho não educado é insuportável, e isso já na tenra idade, a experiência de ser pai é considerada um martírio, e assim se deseja no máximo um filho. Pais separados, estando focados em “encontrar o novo amor” e sobreviver à duplicação de compromissos sentimentais, empurram a responsabilidade da educação do filho de um para o outro.

Quando são notificados do comportamento repreensível de seus filhos, os pais se manifestam com atitudes réprobas. Uma resposta comum é que os outros é que estão errados, pois os filhos são ótimos, ou são “reizinhos” do mundo, ou são vítimas.

Outra resposta comum é que, se estão pagando, então o profissional é quem deve resolver o problema, seja a escola, seja o terapeuta. E, por estarem “ocupados demais”, ou frustrados diante de filhos indomados, e vendo a si mesmos como “psicologicamente incapazes”, os pais transferem os filhos para outros, bem como os entrega à perversão da mídia.

Essa atitude de ver a escola como “a educadora” é um dos maiores equívocos. Educação tem dois significados. Um é a educação informativa, que é o transmitir dados. A outra é a educação formativa, que é o transferir valores morais e espirituais. Hoje, resguardadas as exceções, a escola é apenas informativa. A educação formativa desapareceu da escola.

Primeiro porque a escola também está psicologizada, por isso não tem nenhuma convicção e referência moral que a guie em formar os alunos. Segundo, como os pais também estão psicologicamente neutralizados, a escola se torna impotente por não poder contar com os pais. Aliás, se o aluno tiver alguma formação no lar, é comum o ambiente escolar destruir essa formação.

A escola só pode ser formativa enquanto braço auxiliar dos pais, como foi no passado. Os pais são os verdadeiros educadores, e a eles pertencem os filhos. Mas, isso exige pais moralmente convictos que tenham direção segura e edificante para dar a seus filhos. E exige pais que, negando o materialismo e o hedonismo, conheçam a verdade espiritual cristã para a transmitirem aos filhos, assim dando a eles o que satisfaz e dá o propósito adequado à vida.

Porém, nessa miséria atual de um mundo de adultos moralmente neutralizados e ausentes, as crianças são entregues a si mesmas. Os pais as abandonaram, ainda que sejam bons provedores materiais. Elas estão à mercê de todo tipo de força exploradora e interesseira.

Ninguém as protege. Ninguém as ajuda a se libertar do egoísmo, desrespeito, vazio e imoralidade. Não recebem o amor que se conhece somente através da disciplina e princípios. Ainda não formadas, portanto, despreparadas, encontram-se sós num mundo terrível. É muito triste ser criança hoje. Os pais que conseguem resistir a esse tsunami social desorientador têm um filho feliz e abençoado, mas são poucos.