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Corona científico

publicado em 23 de janeiro de 2021 - Por Pastor Jessé

“Aqui nós não brigamos com a ciência”, afirmou o governador Doria em abril passado. Longe de ser original, isso disse para justificar o confinamento. O fato é que a pandemia passou para o controle da mídia e políticos. E assim, impondo o domínio de uma narrativa, eles se apresentam como porta-vozes da “ciência”.

Porém, políticos e mídia têm um entendimento popular de “ciência”. E não a visão aprofundada e crítica da Filosofia da Ciência. Para se romper com a visão popular basta apenas se ler algo como “As Estruturas das Revoluções Científicas” de Thomas Kuhn. Ou, “Ciência, Fé e Sociedade” de Michael Polanyi.

A ciência é uma ferramenta de utilidade indispensável para o ser humano. Mas, a natureza dela é complexa, diferente da visão popular. Não existe um trono chamado “ciência” de onde emana uma visão neutra, unificada, infalível e definitiva. A busca de conhecimento é um campo de batalha. É um exercício de debates, competitividade de pressuposições e teses, inclusive com egos exaltados. E envolve interesses financeiros, às vezes com desonestidades. Isso tudo passando por tentativas, erros e acertos.

Quando se trata de problema inusitado e recente, como o Covid-19, é preciso cautela. A interatividade científica precisa tempo para dirimir os variados postulados e paradigmas que se apresentam. E ciência não é uma matéria apenas. Numa decisão de abrangência ampla, é preciso analisar e pesar as diversas ciências envolvidas. Alguns exemplos são suficientes para ilustrar o drama.

A “Declaração de Great Barrington”, de diversos cientistas e muitas outras vozes científicas de peso, se levantaram contra o confinamento. Alertaram sobre as consequências desastrosas dele. Longe de negarem o problema, propuseram a alternativa de proteção dos vulneráveis e medidas preventivas para os saudáveis. Mas, por diferirem da narrativa dominante, não tiveram espaço na mídia. O debate foi cerceado. Somente com tempo a análise científica irá dar a avaliação correta quanto as implicações e eficácia, ou não, do confinamento.

Um artigo na revista “The Lancet” em 01 de agosto, focado na Oncologia, analisou as consequências trágicas, nos anos à frente, advindas do confinamento. Diagnósticos e tratamentos foram evitados. Na Inglaterra diminuiu em 60% os diagnósticos de câncer. Sem tratamento, a enfermidade está avançando livremente nas pessoas. E assim tem sido com outros males que afligem o ser humano.

Um grupo de especialistas, reunidos pela Upjohn, divisão da Pfizer, publicou em 30 de outubro o manifesto “Guia da Saúde Mental Pós-Pandemia”. E alertam que o cenário é sombrio quanto ao efeito do confinamento nas pessoas. Isso com consequências de anos. E os departamentos psiquiátricos dos hospitais já experimentam uma alta no atendimento.

Na Economia, em agosto passado o FMI já alertou que o confinamento está encaminhando o mundo para uma recessão. Aliás, quem apoia o confinamento é a minoria que não é financeiramente prejudicada por ele. Fala-se da coqueluche “home office”. Mas isso é privilégio de uma minoria ínfima. A grande maioria trabalha colocando a “mão na massa”. A conta econômica virá.

Um forte argumento para o confinamento é a sobrecarga hospitalar. Isso é fato, mas ele não é abordado com pureza científica. É sabido de antiga data que o número de leitos de UTI está sempre no vermelho, bem como o dos leitos dos quartos hospitalares. Movendo milhões, surgiu a solução imediatista e paliativa dos hospitais de campanha. Logo depois os seguidores da “ciência” desmontaram os hospitais. Agora novamente faltam hospitais.

No capítulo mais recente, foi anunciado oficialmente que a vacina sino-paulista teria 72% de eficácia.

Espantosamente, em seguida foi promulgado que, “cientificamente”, a vacina sino-paulista bateu na trave com 0,4% acima dos 50% de eficácia exigidos pela arbitrariedade cientifica. É essa vacina de 50,4% que será injetada nos paulistas. E a “ciência” exige obrigatoriedade. Aos paulistas sobra o lamento que no mundo científico já há vacinas com eficácia de 95%.

Logo depois veio o choque mais recente. De repente faltam insumos para fazer a tal vacina sino-paulista. Os cavaleiros da “ciência” se aperceberam da escassez do insumo somente depois que ele se esgotou.

“Ouvir a ciência” é complexo. E é preciso cautela quando alguém diz “ouvir a ciência”, especialmente se no poder. Se é desafiador ouvir a ciência, é mais ainda saber como ouvir quem diz que a ouve. O termo tem peso, seu uso é impactante, e o jogo político é oportunista.