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Consumo terrível

publicado em 18 de janeiro de 2020 - Por Pastor Jessé

O filósofo racionalista do século XVII, René Descartes, afirmou: “Penso, logo existo”. Na atualidade a pessoa afirma: “Consumo, logo existo”. Ainda que ela não seja consciente disso, a mentalidade e prática dela estampam essa máxima do consumismo. Tristemente, o indivíduo foi formatado pelo consumismo, mas não se apercebe desse fato sobre si mesmo.

Afirmando a verdade como algo pragmático e relativista, e não transcendental e objetivo, a era atual, a chamada Pós-Modernidade, possibilita a adoção, pelo indivíduo, de qualquer significado de vida que prefira. E isso permite a adoção de uma proposta de vida que se justifica pelo “comprar”. Por ser uma proposta muito pragmática, ela é legítima para a mente Pós-moderna. Assim, na Pós-modernidade, o pragmatismo de “mercado”, que cria o ser consumidor, permanece vivo tal qual como foi na Modernidade. E o “consumismo” permanece como a razão de se viver.

A Pós-Modernidade critica a Modernidade por afirmar “metanarrativas” – explicações abrangentes da existência humana organizadas à volta de um enredo e valor supremo. Porém, a dupla “mercado-consumismo” é um valor que forma uma metanarrativa dentro da Pós-Modernidade. Consumismo é a nova justificativa e organização da vida.

Se as Igrejas eram os edifícios centrais das cidades no mundo ocidental, apontando que a vida e comunidade eram regidas por valores transcendentes e espirituais, as Igrejas já perderam esse lugar. Mudou a metanarrativa. A referência atual da cidade, e então da vida, é o “Shopping Center”. Ele é a nova catedral. E os valores, bem como a fonte de satisfação de vida, também mudaram. A existência humana revolve à volta do consumismo.

No shopping center o ser humano se rende e presta culto ao ídolo do materialismo através do consumismo. Nele o ser humano quer encontrar paz e significado. James Rouse, um arquiteto que projetou mais de sessenta shoppings, ousou dizer que “é no espaço de compras que todas as pessoas se reúnem… É espaço democrático, unificador… que dá espírito e personalidade à cidade.”

Como sempre acontece quando o ser humano cria, ou adota ídolos para substituir Deus, o ídolo do materialismo detona o ser humano pelo esgotamento consumista. No seu livro “Mentes Consumistas”, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva descreve como o consumismo se torna uma compulsão que domina o indivíduo. Alguns se tornam viciados trágicos, outros são viciados camuflados.

Uma das forças que move o cérebro é a busca do prazer, informa a Dra. Beatriz. O prazer, que é sentido pela pessoa devido a um ato ou sensação, vem da liberação da dopamina nos neurotransmissores do cérebro. E quando um dado prazer domina uma pessoa, é preciso renová-lo, provocando mais liberação da dopamina. Surge então a dependência, ou vício, do ato e sensação que produzem tal prazer.

O consumismo faz isso com a pessoa. E a Dra. Beatriz informa que isso está afetando profundamente inclusive as crianças. Até o ambiente escolar estimula consumismo, diz ela. E mais, o consumismo se relaciona a depressão.

O produzir e marketing, que teria a função legítima de atender necessidades reais do indivíduo, passam a ter dimensões equivocadamente espirituais. O consumismo se move com o marketing que promete a satisfação e autorrealização existencial através do consumo, uma devoção ao ídolo do materialismo. Mas, para o mercado se manter é preciso que essa satisfação, prometida pelo marketing, seja renovada infinitamente em mais um produto novo. Nunca se chega à satisfação, sobrando apenas um esgotamento emocional.

Um homem rico acumulou muito por entender que isso daria significado e prazer pleno à vida, conta Jesus numa parábola (Lucas 12:15-21). E Jesus narra que no pico do muito ter, o rico teve a sua a teoria detonada: “… Deus lhe disse: Insensato! Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?” Em seguida Jesus aponta a sabedoria primordial: “…a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. E Jesus adverte: “Assim acontece com quem… não é rico para com Deus.”