Colunistas

Consciência Wilberforce

publicado em 28 de novembro de 2020 - Por Pastor Jessé

No século XVIII, a Inglaterra, terra da Igreja Anglicana, era um país com uma fé cristã decadente, marcado por degradações morais-sociais.

Entre outros males, a Inglaterra se tornara o país que mais lucrava com o tráfico de escravos. Porém, em 1807 ela aboliu o tráfico de escravos e em 1833 aboliu a escravidão nas suas colônias. As análises secularizadas da história, focando apenas no lado político-econômico, apontam que a causa da abolição foi apenas a entrada da Inglaterra na era industrial.

Essa análise é parcial e incompleta. Ela ignora o aspecto espiritual. No fim do século XVIII, a Inglaterra sente o impacto de um avivamento da fé evangélica. O líder mais expoente do movimento foi John Wesley, um pastor formado pela Universidade de Oxford.

Ele viria a ser o fundador da Igreja Metodista. Wesley começou pregar o arrependimento e a santidade da vida cristã, inconformado com a decadente situação religiosa e social da nação inglesa. Não entendido, e nem aceito pelas Igrejas Anglicanas, foi pregar nos mercados e espaços públicos, onde multidões enormes se reuniam para ouvi-lo.

Elas não se reuniam para ver um show musical gospel, nem ouvir uma “pregação” reduzida à psicologia pop, ou a temas motivacionais, visando o “sentir bem”. E nem se reuniam para alcançar um milagre conveniente e imediatista. Elas iam ouvir Wesley falar do poder da obra de Cristo na cruz. As multidões eram chamadas ao arrependimento e ao abandono da imoralidade através da conversão a Cristo.

O impacto do movimento liderado por Wesley resultou em reforma do sistema prisional, promoção da educação para todos, formação de agências para criação de empregos, fundação de um banco para financiar projetos populares e combate ao trabalho prejudicial à criança.

Um fato significativo desse movimento foi a conversão de William Wilberforce. Tendo crescido numa família abastada, Wilberfoce viveu uma vida libertina. Ainda na juventude foi eleito para o Parlamento inglês em 1784. Após sua conversão a Cristo, ele liderou diversas causas humanitárias, inclusive a abolicionista. John Newton foi um dos que mais influenciou Wilberforce na causa abolicionista. Tendo também se convertido a Cristo, Newton abandonou sua profissão de capitão de navio negreiro, passando a lutar pela abolição da escravidão.

Wilberforce ficou no Parlamento até 1825. Ele sempre lutou incansavelmente pelo fim da escravidão nas colônias inglesas. Alguns colegas ficavam irritados com ele porque introduzia frequentemente no Parlamento a proposta da abolição. A causa de Wilberforce foi parcialmente vitoriosa com a proibição do comércio de escravos em 1807.
A partir daí a Inglaterra passou a pressionar outras nações a fazerem o mesmo, especialmente Portugal. Wilberforce se aposentou do parlamento em 1825 sem alcançar a abolição da escravidão nas colônias inglesas.

O parlamentar Thomas Buxton assumiu a frente do movimento abolicionista. Em 1833, ano da morte de Wilberforce, foi decretado o fim da escravidão nas colônias inglesas, libertando 700.000 escravos. Foi a vitória de 25 anos de luta parlamentar de Wilberforce.

Em 12 de novembro de 1822 o embaixador brasileiro, Visconde de Barbacena, contatou o governo inglês para que reconhecesse oficialmente a independência do Brasil. Os ingleses responderam: “ou o Brasil suprimia o tráfico de escravos e fixava um prazo de dois anos para extingui-lo, ou não se falaria em reconhecimento”. Finalmente houve um acordo, e o Brasil prometeu abolir o tráfico dentro de três anos.

O Brasil só cumpriu essa promessa em 1831. Mas mesmo depois dessa proibição do tráfico, ele continuou a acontecer no Brasil fora das vistas dos ingleses, surgindo assim o ditado: “para inglês ver”. O tráfico negreiro foi realmente interrompido somente com uma nova lei mais definida em 1850, sob forte pressão da Inglaterra. Finalmente veio a abolição plena em 1888. Esquecer a repercussão da consciência cristã de Wilberforce é entender parcialmente a grande vitória sobre a escravidão.