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Conhecer a história das lutas pela preservação ambiental

publicado em 19 de fevereiro de 2019 - Por Ambiente em Pauta

Qual a importância de conhecermos e valorizarmos a identidade daqueles que lutam pelas causas humanitárias e socioambientais?

Reconhecer os exemplos de luta pela preservação socioambiental é referência básica para a construção de identidades dos sujeitos que são sensibilizados e ativos às causas ambientais, perceber que existe uma história de desafios e conquistas, quais foram as mãos que seguraram a bandeira da preservação, que vem passando a gerações e alimentando lutas atuais.

Reconhecer a figura de Chico Mendes como um ícone da luta socioambiental é uma atitude de respeito e constituição de base teórica significativa para a compreensão histórica das lutas ambientais no Brasil, até porque, conhecendo o passado, teremos menos chances de continuar a reproduzir problemas na sociedade. Para quem conhece pouso ou não conhece a biografia de Chico Mendes, vale a pena se aproximar de sua história.

Chico Mendes, o maior símbolo brasileiro da luta pela preservação da Floresta Amazônica, assassinado em 1988 a mando de um fazendeiro, seu legado ainda é atual e necessário. Filho de seringueiro, passou sua infância e juventude ao lado do pai cortando seringa em Xapuri, estado do Acre. Chico Mendes só aprendeu a ler aos 20 anos, por conta da falta de escolas na região da floresta.

A vida no seringal moldou no jovem seringueiro um sentimento de revolta contra a injustiça. A atividade econômica de extração da borracha, na Amazônia, foi sempre pautada por relações de grande exploração.

A situação do Acre era crítica na década de 1970. A política para a Amazônia implantada pelo regime militar gerou grandes conflitos fundiários. A substituição da borracha pela pecuária levou à especulação fundiária e ao desmatamento de grandes extensões de terras, impedindo a permanência dos seringueiros na floresta. Em 1975, iniciou sua carreira como líder sindical, como secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. No ano seguinte, começou sua luta pacífica para impedir o desmatamento da floresta.

Ele criou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC) e foi o organizador da União dos Povos da Floresta — aliança entre indígenas, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores e populações ribeirinhas que poderiam ser ameaçados pelo desmatamento da região. Seu ativismo deixava os fazendeiros incomodados.

A convivência de Chico com a floresta e o conhecimento que adquiriu sobre como obter da natureza os meios de vida, instigaram sua curiosidade e deram origem a uma teoria que seria, mais tarde, comprovada: a de que os benefícios derivados da manutenção da floresta são maiores do que o valor que se obtém com a sua derrubada. De fato, sua luta foi reconhecida internacionalmente. Em 1987, Mendes falou na reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Miami (EUA), denunciando a destruição da floresta.

No ano seguinte, em 1988, ganhou o Global 500, prêmio da Organização das Nações Unidas, além da Medalha de Meio Ambiente da Better World Society. Ao mesmo tempo em que era reconhecido internacionalmente, em Xapuri as ameaças de morte aumentavam a cada dia. A militância não conseguiu salvá-lo. Aos 44 anos, no dia 22 de dezembro de 1988, em uma emboscada nos fundos de sua casa, ele foi assassinado por Darly Alves, a mando de seu pai, Darcy Alves, grileiro* de terras.

*Grilagem de terras: Segundo o INCRA, é a ocupação irregular de terras, a partir de fraude e falsificação de títulos de propriedade. O termo tem origem no antigo artifício de se colocar documentos novos em uma caixa com grilos, fazendo com que os papéis ficassem amarelados (em função dos dejetos dos insetos) e roídos, conferindo-lhes, assim, aspecto mais antigo, semelhante a um documento original.

A grilagem é um dos mais poderosos instrumentos de domínio e concentração fundiária no meio rural brasileiro.

Contribuição de Maria Cristina Muñoz Franco, integrante do Coletivo Socioambiental e Associação Bragança Mais.