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Cada vez mais desnecessário

publicado em 6 de abril de 2019 - Por Antônio Carlos de Almeida

O ser humano vem perdendo espaço na dinâmica da produção, e, consequentemente, na obtenção de recursos para a própria sobrevivência. Durante séculos, a pessoa era necessária para guardar o modo de viver, de produzir e a história da família em sua própria memória.

Com a progressão da escrita e o advento da imprensa, muita coisa passou a ser guardada, com vantagens quanto à precisão de informação e de conhecimento, em papel ou livros. Mais recentemente a inteligência artificial substitui, em muitos pontos, a humana. Um chip muito pequeno guarda e faz transitar grandes importâncias de dinheiro, com segurança e rapidez. Ou transporta centenas de músicas ou imagens.

O médico examina muito rapidamente, são as diversas máquinas de exames laboratoriais que dizem qual é de fato a doença, o médico apenas assina. Milhões de brasileiros de todas as partes do país migraram para regiões onde a produção industrial era mais intensa, agora essas indústrias encerraram suas atividades, várias estão indo embora do país. No início do Proálcool era necessário colocar fogo em canaviais e milhares de cortadores de cana.

Hoje, uma máquina de última geração, totalmente informatizada e climatizada, substitui centenas de cortadores. Não são poucas as profissões que deixaram de existir. Outras estão aparecendo a cada dia, sempre em menor escala do que a quantidade de pessoas ávidas por trabalho e emprego.

No último fevereiro, conforme dados do PNAD, o desemprego alcançou 12,4% da população economicamente ativa do Brasil. O aumento representa 892 mil pessoas desempregadas a mais no país, somando 13,1 milhões de trabalhadores nessa condição. Já a taxa composta de subutilização da força de trabalho ficou em 24,6%, somando 27,9 milhões de pessoas, pico da série histórica iniciada em 2012.

O grupo de trabalhadores subutilizados reúne os desocupados, os subocupados com menos de 40 horas semanais e os que estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem procurar emprego por motivos diversos, informou IBGE. Já o número de pessoas desalentadas, que chegou a 4,9 milhões, também é recorde da série, assim como percentual de desalentados, de 4,4%. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, foram mais 275 mil pessoas nessa condição.

O ser humano é cada vez menos necessário para a dinâmica do mundo atual, cuja ritmo, em grande parte, é estabelecido pelo mercado. Nas discussões atuais quanto à reforma da previdência social, empresários dos mais diversos ramos opinam abertamente pela necessidade dessa reforma. Dizem todos que é para salvar o país. Ou seria para aumentar os seus lucros? Não dá para entender a lógica do mercado neste ponto.

A reforma da previdência certamente diminuirá encargos sociais das empresas, tornando-as mais competitivas no mercado internacional. Mas também diminuirá os rendimentos das famílias, pelo menos de antigos e novos aposentados. Como manterão os atuais níveis de consumo? E de produção, comercialização, faturamento e lucro?

Não vi até agora alguém fazer contas na perspectiva do aposentado. O adiamento de aposentadoria baseada em idade mínima ou tempo de contribuição trarão sérios problemas para aquele que trabalha há muitos anos. Mais brasileiros morrerão antes da aposentadoria.

Crescerá o número de idosos que devido a emprego ou a subutilização não conseguirão a aposentadoria. Os valores dos novos benefícios tendem a ser menores. Não vejo defensores da nova previdência, representantes do governo, parlamentares ou empresários, somando despesas inerentes a moradia, tranporte, alimentação, remédios e outros itens relacionados a uma sobrevivência digna.

Dão a impressão de que aqueles que se aproximam da aposentadoria atrapalham o país. Aposentados são desnecessários. Ou são estorvo. Precisamos todos procurar um lugar decente para o ser humano em nosso país e no mundo. Esta tarefa é urgente e cada vez mais necessária. Precisamos de um mundo onde caibam todos. É inadmissível que sobre alguém em nossa casa, cidade ou país.