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Cada eleição, nova chance de correção de rumos

publicado em 27 de junho de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

Sob o título de “Eleição complexa e decisiva”, publiquei aqui em setembro de 2018 o texto que resumo abaixo. Parece-me oportuno na medida em que todos os governantes eleitos naquele ano estão encontrando grandes dificuldades, principalmente com a chegada da pandemia. Também oportuno no contexto de mais um ano eleitoral, desta feita, com campanha, calendário e debates prejudicados por agendas mais graves e urgentes.

Dizia naquela ocasião: Precisamos acertar, não podemos errar. Candidatos fortes e ficha limpa não são muitos. As propostas partidárias estão pulverizadas, visto que são muitos os partidos e os projetos de país e de estado. A maioria genérica, carente de arrojo. Muita coisa está em jogo na proposta dos presidenciáveis. O cargo de presidente é extremamente complexo. É muita coisa para uma pessoa só.

Relacionei então cinco eixos de atuação de um presidente da República. São eixos decisivos para o presente e o futuro do país. Não é pouca coisa. Cada eixo, no atual momento do país e global, requer acerto, eficiência e eficácia: a administração da máquina pública nacional; a articulação política com mais de 600 parlamentares e mais de 35 partidos; a regulamentação da voracidade do mercado; o atendimento adequado das demandas sociais quanto à saúde, educação, segurança e aposentadoria decente para trabalhadores das mais diversas áreas. E, ainda, as relações internacionais.

Fazer com que todos esses eixos funcionem plena e harmoniosamente, não é tarefa simples. Vai muito além do estar à direita, no centro ou à esquerda. Depende também daquilo que está acontecendo no mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, Rússia, China e bloco dos países mais ricos. Cabe também um olhar para o conjunto de países em crises profundas e duradouras.

Que mandatários estes países escolheram? Que resultados estão obtendo? Quais são as chances de saírem do buraco em que se colocaram? Alguns destes países escolheram o caminho do isolamento e não deu certo. Outros escolheram soluções radicais de direita ou de esquerda e romperam com a harmonia do tecido social.

Para atuar em todos os cinco eixos acima mencionados, são necessários visão, foco, persistência e, principalmente, adequada distribuição dos recursos necessários. No atual quadro brasileiro, capacidade de continuar atuando decisivamente na eliminação da corrupção sistêmica e largamente difundida em todos os níveis de governo. Essa limpeza foi iniciada, precisa continuar e ser aprofundada.

Um presidente necessita ser experiente em termos de administração pública. É enorme a máquina administrativa, com regimento próprio, grandes interesses internos e externos. Muitos setores da administração pública federal são pouco produtivos. O custo já alto tende sempre para mais alto. É evidente que um presidente não cuida pessoalmente disso, mas necessita de habilidade para delegar esse comando a pessoas competentes. Necessita ainda de saber lidar com manhas e artimanhas, algumas vezes, com chantagens.

Requer-se sempre de um presidente autoridade e habilidade política, para lidar com os mais diferentes grupos de interesse, do meio político, empresários, igrejas, sindicatos, associações e lobbies. Negociar muitos acordos, ceder quando necessário e usar da autoridade inerente ao cargo sempre.

São forças que não podem ser negligenciadas, menos ainda contrariadas, sob a pena de enormes dificuldades para governar e riscos de impeachment. Muitos eleitores sonham com um salvador da pátria por cima dessas forças todas. A história brasileira e internacional tem histórias e desfechos tristes. Não poucos ditadores levaram países inteiros à derrocada. Vários eleitos foram destituídos do poder que lhes fora concedido.

Necessariamente, o presidente precisa atuar diante do mercado, sempre voraz, em busca de concessões e de desregulamentação. É constante a ameaça de grandes grupos internacionais deixarem o país. O mercado, sob a égide liberal, quer um estado mínimo.

É grande a insistência por privatizações. O atendimento social na área da educação, saúde, segurança e aposentadoria são sempre acusados de vilões pelo mercado. Este almeja sempre total liberdade para a realização de seus lucros. Quando não vai bem, exige socorro. Dificilmente mantém os acordos trabalhistas, dispensa em massa mesmo quando o país precisa gerar novos empregos. Tudo tem imediato reflexo no câmbio de dólares e na bolsa de valores.

O presidente tem enorme responsabilidade no campo social. Não pode fechar os olhos ao alto número de desempregados, de desalentados e de trabalhadores que estão precariamente inseridos no mercado de trabalho. Não menor é a responsabilidade quanto ao cuidado com a saúde dos brasileiros. Diante de si está o tremendo problema da insegurança.

E a necessidade de universalizar educação cidadã e técnica para milhões de crianças, jovens e adultos. Milhões de famílias ainda vivem abaixo da linha da pobreza. Desenvolver melhores condições de vida é a grande esperança da maioria dos eleitores que proximamente comparecerá às urnas.

O cenário internacional está também instável. A tendência de formação de blocos de comércio e de intensificação de relações está sendo substituído muito rapidamente para a predominância de países fortes que ditam regras que penalizam duramente os mais fracos.

Dezenas de países já se encontram em situação de grande fragilidade. Milhões de indivíduos encontram-se desterrados. Muitos brasileiros já vivem fora do país, a maioria sem um projeto sólido, realiza tentativa sem planejamento consistente. Existem alianças internacionais a serem revogadas, a serem retomadas, a serem reforçadas ou a serem iniciadas. O presidente deve ser um estadista com visão mundial e constante ação internacional.

Ressalvadas as proporções, a função de prefeito municipal também é complexa e requer análise criteriosa. É a tarefa que eleitores de cada um dos municípios brasileiros têm nesta segunda metade de 2020.

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