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Brumadinho, água, cerveja e fé

publicado em 25 de janeiro de 2020 - Por Antônio Carlos de Almeida

No atual modo de vida, independentemente de participar ou não de alguma igreja, a fé, mais ainda, a boa fé, é um exercício diário. É necessário confiar que os ingredientes descritos numa embalagem estão presentes no produto.

É necessário acreditar que os princípios ativos descritos numa bula produzem de fato o alívio ou a cura esperada. É necessário acreditar que a fala de uma autoridade garantindo ausência de perigo em alguma situação do município seja verdadeira.

Muito tristemente, alguns acidentes recentes nos sugerem que precisamos estar mais atentos. Sugerem que precisamos reforçar a fé mesmo quando haja sinais de que a coisa não vai bem. Ou melhor, precisamos colocar nossa fé em ação: buscar a verdade, questionar falácias, reunir pessoas para aumentar a força da pressão e exigir solução.
Moradores do Rio de Janeiro andam assustados com a água muito escura que chega às caixas, torneiras e chuveiros. A aparência da água em nada lembra a transparência típica da água adequada ao consumo humano.

Foi necessário correr aos supermercados e a outros pontos de venda de água mineral para aliviar a preocupação com possível contaminação. Logo choveram reportagens mostrando que pouco acima do ponto de captação de água para a maior parte da região metropolitana, praticamente todos os riachos recebem esgoto “in natura” de residências e indústrias.

Vários especialistas, ao analisar o problema, afirmam que a estação está equipada para tratar água, mas não tem recursos técnicos para tratar esgoto. A empresa garante que, não obstante a aparência horrível, a água está boa para consumo humano. Como acreditar?

Em Belo Horizonte, a internação de várias pessoas e a morte confirmada de outras três também exemplificam a necessidade de ter fé inclusive quando consumimos uma bebida industrializada. Quando a investigação de médicos e da polícia começava a procurar causas para mal estar semelhante em várias pessoas, foi decisivo o esforço de duas mulheres de pacientes na busca de algo em comum para a moléstia de seus esposos. Chegaram à conclusão de que em comum havia o consumo de uma mesma marca de cerveja. Logo constataram que outros pacientes tinham consumido o mesmo produto.

As explicações de especialistas, com termos altamente técnicos, ao invés de tranquilizar, causam apreensão ainda maior. Descobrimos então que os alimentos e as bebidas industrializadas têm alta presença de elementos químicos em sua composição, para melhorar o sabor ou para conservar durante mais tempo. Então, precisamos professar fé de que aquilo é alimento saudável, de que um colorante ou um conservante não são prejudiciais à saúde do consumidor.

É necessário confiar na segurança dos processos de armazenagem da matéria prima, na integridade dos processos produtivos, na qualidade da embalagem, na adequação do transporte e nos cuidados dispensados nos pontos de venda. A cadeia produtiva requer confiança em cada um de seus elos, mesmos sendo pouco conhecidos ou desconhecidos. Requer-se fé naquilo que não se vê.

Revoltante é o que aconteceu nas cidades mineiras de Mariana e Brumadinho. Toda a população convivia com mineradora poderosa. Via a montanha ser recortada, sabia da represa existente lá no alto. Muitos moradores trabalhavam lá.

Não sabiam dos riscos que corriam. Imaginavam que estavam seguros. De repente, sem qualquer aviso, a avalanche mortífera. Hoje são centenas de órfãos e de viúvas ou viúvos. Ainda existem corpos que não foram localizados. No último dia de finados, os parentes de desaparecidos não sabiam o que celebrar.

Esses episódios todos nos ensinam que é necessário observar informações, conferir dados, estar sempre atentos. Mostram-nos a necessidade de denunciar irregularidades, de cobrar ações de órgãos públicos e de contribuir para que catástrofes sejam evitadas. Inclusive nas pequenas coisas do nosso dia a dia cabe a orientação de Cristo: “Olhai, vigiai e orai porque não sabeis quando chegará o tempo” (Marcos 13,33). Existem catástrofes que podem ser evitadas.