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Brincar vale mais do que dar brinquedos

publicado em 18 de agosto de 2018 - Por Antônio Carlos de Almeida

Um sobrinho comemorou 31 anos de idade nesta semana. Teve então vontade de reunir alguns primos para realizar um almoço parecido com alguns que realizamos em minha casa quando ele era bem pequeno. Eu mesmo já tinha esquecido. Ele se lembra até hoje. E tem saudades. Tem vontade de repetir aquela vivência da infância. E, inclusive, compartilhar com sogros e cunhados.

É uma coisa bem simples. Macarrão tipo pene recheado com tiras de presunto e de queijo. Ele sorri gostoso quando relata a experiência infantil de rechear cada canudo de macarrão. Simples assim: uma mão segurava o macarrão, outra introduzia o recheio, numa pequena roda com os primos e as primas, enquanto eu fatiava e preparava o molho. Muitas tirinhas de presunto e de queijo iam para a boca.

De todos nós. Não era fácil dar conta de tanto recheio. No final, colocávamos macarrão sem recheio no meio dos recheados. Essa experiência é tão marcante para esse sobrinho que mesmo morando fora do país, recém-casado, fez lá essa receita de macarrão.

Brincadeiras muito simples costumam fazer muito sucesso com a pequenada. Jogar uma almofada, correr atrás de um animal doméstico, chutar uma bola mesmo murcha, fazer um pequeno passeio, aventurar-se por uma trilha, imitar som de animais, dar um pequeno susto, brincar de esconder, empurrar um carrinho de pedreiro, soltar um carrinho de plástico morro abaixo, conversar com uma boneca.

Crianças de colo riem muito quando aproximamos os rostos e de repente dizemos “ai que susto”. Não é necessário brinquedo sofisticado. Às vezes, este fica de lado, principalmente quando o adulto topa qualquer tipo de brincadeira. E tem pique. As crianças têm sempre muito fôlego. As de hoje parecem ter ainda mais folego do que crianças de outras épocas.

Observo com frequência o equívoco de encher a criança de brinquedos, às vezes muito caros. Passados os momentos iniciais, não raramente esses brinquedos são deixados de lado. Alguns brinquedos simples acabam sendo preferidos durante muito tempo. Fazem falta quando não estão disponíveis. Já vi sacos cheios de brinquedos, já vi quartos repletos de brinquedos. Quebrados ou deixados de lado. Existem crianças que exigem a compra, que pressionam os pais, sem que estes consigam dizer não.

Ocorre aí uma espécie de ditadura infantil. Uma inversão de papéis: mandam as crianças no lugar dos adultos. Não é saudável nem mesmo para os filhos. Outros pais oferecem aos filhos, sem que estes tenham solicitado. Acabam tendo pouco valor, na medida em que não foram demandados. Muitos compram para os filhos com o objetivo de compensar os brinquedos que não tiveram na sua infância. Tentam apenas sanar uma carência pessoal, alheia à criança.

Outra consequência de exageradas compras está no fomento do consumismo. Este propõe frequentes substituições de bens adquiridos. Faz parte da engrenagem consumista o rápido sucateamento. Tudo precisa ser substituído por um modelo novo, tecnologicamente mais avançado.

Nada é para sempre. Nada deve ser conservado. Começa com os brinquedos, logo mais os valores pessoais, familiares e religiosos também não precisam ser mantidos.

Mesmo custando dinheiro e movimentação no processo de compra, muitas vezes dar um brinquedo exige menos esforço do que brincar. Sentar no chão, correr atrás de uma bola, contar histórias, tudo isso e outras atividades recreativas exigem tempo, dedicação e, principalmente, atenção.

É necessário deixar de lado o jogo ou a novela da TV, o computador ou celular, o cuidado do carro ou da cozinha, a cervejinha com amigos … Talvez aqui esteja o segredo do sucesso que os avós fazem junto aos netos de todas as idades. Atenção, interação e carinho fazem toda a diferença. Marcam para sempre. Raramente são esquecidos. E fazem rir. De felicidade.